quarta-feira, 18 de abril de 2018

Dos momentos


Imagem: http://crocomila.blogspot.com.br/

Pouco a dizer nesses tempos sombrio de Golpe que se vive nesse Brasil; mas, a vida continua e o sol nos pede, diariamente, a necessidade de viver e sonhar – assim mesmo, junto. Ontem, ao no deslocamento infortuno para uma aula que não teve, ganhei a noite no encontro com um amigo, desde o restaurante universitário, em uma conversa que foi da Arte à Política; da Sobrevivência ao Amor, da Academia à Rua. Curiosamente, esse meu colega não tem usado ônibus, por razões financeiras e filosóficas, faz um longo deslocamento diário entre a residência e o Centro, onde estuda um percurso de bicicleta. Daí, isso permitiu um tempo, que não costumo me dar, para várias coisas: contemplar a paisagem urbana, refletir sobre o momento atual brasileiro e o meu momento e sobre as perspectivas na universidade e fora dela. É interessante sempre percebermos o quanto podemos perder ou ganhar em meio a uma caminhada, e aqui me refiro a caminhada longa, aquela dos objetivos. Às vezes, parar e perder alguma coisa é ganhar muito, em termos de tempo. Assim, acordamos, comemos, viajamos, estudamos, pagamos, sempre na pressa, e a vida e seus detalhes vai se perdendo. E nessas partículas de momentos há muita coisa rica, que é preciso valorizar. A arte pode ajudar nisso, mas há também uma margem de opção nossa, individual, que precisa ser manifestada. Dela pode depender uma vida mais intensa, no sentido espiritual.

terça-feira, 20 de março de 2018

Da periferia ao Centro

19 de março, mais um dia em uma capital brasileira.

Cinco dias após o a execução covarde da vereadora Marielle, no RJ, cá no Sul, vou vivendo, tentando entender tudo isso.

Agora sem celular, pois fui roubado dentro do ônibus, por um assaltante aparentemente tão desesperado quanto truculento, me sinto meio aliviado, de certa forma. Precisamos tecnologia, sim, mas ela nos escraviza. Andar, em silêncio, enriquece muito. Tipo as andadas que dou, diariamente, do bairro ao centro, de minha cidade.

Foi numa destas, na fila da Lotérica, que observava como é dinâmica e fria o atendimento das caixas. Aí me ocorreu porque os banqueiros dispensam tanto o atendimento face-a-face. Além de custoso financeiramente, ele aproxima as pessoas. E isso esclarece, o que é perigoso. Um idoso, por exemplo, se queixava que havia se enganado quanto ao valor do saque. A atendente berrava do outro lado: mas o senhor confirmou, mas o senhor confirmou!!! No fim, tudo corrigido e ele se despediu desejando bom dia à moça, que respondeu desajeitada.

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A universidade, por outro lado, prossegue distante de tudo, apesar de tão próxima. Parte da periferia, uma parte bem inexpressiva, está lá. Mas não representa ainda quase nada. As mesas grandes, que outrora aproximavam, agora são mesas redondas, que poderiam aproximar mais, senão fosse o individualismo que impera e as torna particulares. Não raro ver estudantes comerem em mesas sozinho e a maioria interagindo com dispositivos móveis enquanto comem, o que se replica também nos transportes coletivos, bares e até nas ruas. 


Na faculdade, há o medo de uma esquerda que não existe mais. Sim, das faculdades mais atrasadas, cabeças do século passado prosseguem pensando que Lula e o PT são uma ameaça. No elevador, encontro um professor, ou sei lá o que, que diz: Maluf é petista. Aqui são petistas. E eu respondo “... ainda se fossem PSOL” (Partido da vereadora assassinada).. foi só o que me ocorreu antes da porta do elevador fechar.

O campus tem mais cores étnicas, mas de fundo, vai demorar muito para democratizar de vez. Isso é lento, há mentes e culturas encasteladas. De qualquer modo, há um movimento silencioso por indígenas e quilombolas que não se aquietam, que teimam em lá preservar as vagas conquistadas pelas cotas, mesmo havendo muitos querendo os tirar de lá.

No prédio da medicina, o medo é o que impera. Ali fica bem mais nítido o controle e o terror contra a ameaça externa, que vem contagiando a todos nos últimos anos. Não bastasse muros, grades, guardas, alarmes – como a maioria das faculdades, lá também há um rigoroso sistema de cartão eletrônico que é preciso para passar por roletas.“Quero só ver os murais”. – em que andar? Pergunta o guarda sem entender. “Qualquer um, eu quero só ver os murais, gosto de acompanhar atividades e cursos”. – Ok, identidade e cartão UFRGS. Vai no protocolo! Vou lá, mas só passo na frente, o que queria estava nos corredores. Ele não entendeu.


Apesar de tudo, há gente que quer mudança por lá, que sobrevive nesse labirinto, dialogando diariamente com suas raízes das periferias. Eis aí a esperança. Adversos aos playboys que passam as manhãs nas mesas de sinuca dos campi – e que jamais são rotulados de vagabundos, como o pessoal que joga futebol nas peladas das vilas – o acadêmico das periferias enxerga os dois lados e precisa sobrevier.

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Passando pelo centro, nas ruas, muitos haitianos e indígenas, na condição de migrantes e sobreviventes, dá um ar diverso à rua, mas não era bem esse que eu queria. Sim, a diversidade étnica é salutar, porque demonstra que a rua é pública. Mas, nesse caso, em Porto Alegre, o que há mesmo é pedintes dessas etnias. E muitos zumbis par um lado e outro.

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As escolas técnicas foram uma grande conquista. Mas, como tudo que é publico, padecem do sucateamento. Prédios imensos disponíveis a burocratas, mas subutilizado por quem mais precisa.

Em toda parte a burocracia virtual dificulta ainda mais a vida de quem não tem acesso. “Use a senha” (como?). Acesse (de que maneira?). “Imprima” (onde?). A exclusão digital é tão galopante. E tem lógica.

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Para o deslocamento para as cidades da região metropolitana a o preço da passagem é pela hora da morte. Dá para entender, por aí, que além do desemprego, a inviabilidade da mobilidade é outro fator central gerador da violência. O estado é violento quando omite direitos e acessos. Mas o mercado é enfático também, no seu discurso e na sua realidade.

Na região metropolitana as cidades são grandes, mas pequena. Comércios ativos, mas sem gente com dinheiro, tudo quebra.

A estrutura pública é deficiente, por sua vez, apesar de arrecadar muito. Não se investe em serviços de qualidade para o público. Ali deveria haver competência e qualidade, mas pública. Infelizmente, porém, o sucateamento também é gritante.

Andar é bom, mas cansa. Daí, porque, é preciso viver por dentro para sobreviver a tantas insanidades.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Um pá de motivos para pensar na direção contrária

Sebastião Pinheiro*

É desesperante a realidade da agricultura mundial, principalmente a de ejidatários, agricultores familiares, populações indígenas e outras populações tradicionais.

A situação é tão catastrófica que começa atingir os agricultores comunitários do pac da UE e os membros do FB (National Farmers Bureau) dos EUA.


E os problemas são em todas as frentes e atividades no solo, água, natureza, clima, estrutura da propriedade, políticas macro e micro para a agricultura, velhice, juventude, religião e espiritualidade. Não há um item sequer onde se possa dizer que há uma réstia de luz ou esperança.

No entanto, nos meios concessionados de comunicação ou aparelhos de educação a única coisa que se vê são informações comerciais financiadas pelos interessados em veiculá-las sem honestidade, ética ou mínimos valores morais e de cidadania. As academias estão subordinadas aos interesses de mercado das corporações, agora governo.

Se quiséssemos resumir o que se passa com a humanidade, a palavra é despejo de valores a favor do dinheiro, não interessa como é obtido.

Sofro, pois passei a minha vida estudando contra o envenenamento e contaminação de populações ignorantes ou humildes pelos riscos dos venenos militares impostos aos camponeses (defensivos, agrotóxicos, remédios, agrofármacos, etc. ). Muito na mão da ditadura militar, mas fiz-lhes um bom dano. 


Hoje, fico envergonhado com o que vejo nas academias, universidades, governos, meios de comunicação e sociedade, pois é cumplicidade com o que é chamado de agronegócio. Os seus porta-vozes agem como animais treinados com "reacções pavlovianas" e nada é mais pensado ou meditação de uma realidade singular que exige, em cada caso, um leque de soluções que adequasse a níveis econômicos dos atores, - diferente do que existia até mesmo nos pacotes tecnológicos norte-americanos, impostos às empresas de tecnologia do continente e mundo nos interesses das fundações de "Auto benemerência" gringas, alemãs, japonesas, britânicas, francesas e outras...

Há tal despejo em coisas tão primárias que passam despercebidas: a macrobiótica é uma alternativa nutricional milenar que acompanha a humanidade principalmente na China e na Índia (George Ohsawa, que o filósofo japonês (1893/1966) o transformou em sistema de ensinamentos Yukikazu Sakurazawa (Nyoiti). - Sakurazawa); chega ao ocidente muito cedo, mas também referenciado pelo livro Macrobiótica, escrito já em 1882 por Julius Hensel. Não temos percepção que a "Macrobiótica" é a religiosidade Ayurvédica transformada em educação e comportamento espiritual nos hábitos nutrcionales cidadãos.


Hoje em dia, isso é uma prática comercial carregada com marcas exóticas: "Vegano ", " Slow food " e coisas mercadológicas do consumismo e da alienação. Há muito tempo conheci um idiota que identificou-se como " Dr. No Slow Food ", apresentando o álibi que isso foi criado por um "comunista italiano " para justificar a importância social. Há muito tempo que os serviços do terceiro setor são pensados e formatados dentro dos órgãos de inteligência dos países industriais para atuar com ONGs mercenárias.

A Indústria de alimentos é hoje "tudo" e bem além da atividade ultrasocial da agricultura e sua missão, é o despejo total dela pelo agronegócio...

No México, o renomado chef René Redzepi abre um restaurante sobre as areias de Yucatán e oferece comidas tradições yucatecas pelo valor de 600 dólares a porção; na capital argentina, agora caba se oferece comida servida em uma pá de aço, sucos em um frasco de conservas com um buraco na tampa, empanadas em vidros do mesmo tipo a altíssimo preço.

Não é permitido pensar na contaminação por barinces e óleos impregnados ou libertação de metais pesados da liga de aço como Chumbo, Vanádio, Tungstênio, Lantanídeos e outros... (Foto1 e 2)




 

Na Ordem internacional anterior (Gatt, até ao Uruguay round) as espumas (poliestireno) eram já proibidas nos países da CEE (UE), da mesma forma que Tetrapak®. Hoje em dia, isso é uma epidemia de uso em todos os países, mesmo quando a ciência avançou quase 40 anos na toxicologia desses riscos e danos.

Na Agricultura, o mais grave é o surgimento de plantas mutantes (Qulites Mutantes) resposta fisiológica à utilização de herbicidas (2,4-D, Glifosato, Paraquato, Tordon e outros). Estas plantas usadas muitas vezes como fitofármacos, como o óleo de Conyza Canadensis (e. Canadensis); folhas e raízes de Bidens Pilosa ou milhares de outras, que apresentam contaminação por herbicidas em níveis tóxicos e desconhece-se a sua eficiência fitoterápica.

Em Londres o ex-espião russo-britânico Sergei Skripal e a filha foram assassinados com um agente nervoso fosforado, onde uma semana depois os peritos usam esta vestimenta, pois quem contactou com os mortos está internato com grave envenenamento.

Os britânicos sabem o que são os quirales toxicologicamente e o porquê da precaução, no entanto, os agrônomos latino-Americanos nem sequer sabem que são os resíduos, metabolitos e degradabólitos sinergizados (apurados) por fotooxireducción ou fotolipooxireducción. Mal sabem reconhecer uma ser, avaliar a sua condição de praga para, em último caso, recomendar um dosar com todas as precauções necessárias.

Bem, o núcleo ativo mais eficiente entre os ésteres fósforo são os derivados do ácido fosfonico (Sarin, metrô de Tóquio, vx, Iraque, Síria e etc. ) (Foto3).


No entanto, o herbicida mais utilizado no mundo é o Glifosato e Polaris, são derivados do ácido fosfónico, que têm ele omo metabolito (A.P.P., MPA, Ohmpa); Polaris é muito usado em cana de açúcar. Outro regulador hormonal é o Etrel (Etephon), de fórmula química ácido 2-Chlor ethyl phosphonico, que como é conhecido provoca a inibição da colinesterase cerebral, mas não tem nenhum efeito sobre a colinesterase plastmática.

Para se fazer análise da colinesterase cerebral é necessária a punção raquidial, o que em condições muito especiais em hospitais com infra-estruturas e neurocirurgiãos, acompanhados por bioquímicos, torna-se necessário, mas sequer temos os padrões enzimáticos para o teste, pelo custo.


Nos resíduos não há quem determine metabolitos porque os seus padrões precisam de ser produzidos e analisados simultaneamente, sem que se possa armazená-los, mesmo em glaciares temperaturas.

Estudava O ÁCIDO 2 Chlor ethyl phosphonico ou ethephon na "Wikigenes" Quando é acusado de ser responsável por epidemias de completas soja e outros fungos. Os dados sobre a destruição do sistema imunológico em cultura de café, citrus, videira, cana de açúcar, soja, algodão, milho, trigo e muitos outros propagam epifítias com o conseqüente aumento no uso de fungicidas, inseticidas e similares para o gaudio de café.

Os estudantes periféricos e aculturados e todos os setores do agronegócio, como eu tenho visto na TV e exposições e feiras do agro.

As academias, os governos e organismos multilaterais promovem essa onda de cumplicidade corrupta.

O "Bombeiro agroecológico" Deixa a pergunta (Foto4):


- O que devemos fazer para educar professores universitários, estudantes, jornalistas do agronegócio, editores de meios de comunicação, juízes, legisladores e burocratas de governos e acadêmicos cúmplices?
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*Engenheiro Agrônomo, ambientalista e escritor.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Academia contesta o Golpe de 2016


Montagem: Jornalistas Livres

Finalmente a comunidade acadêmica sulista também começa a aderir com mais efetividade a essa onda cidadã pelo respeito às garantias constitucionais e ao voto democrático neste País; com isso, todas as regiões do Brasil já estão representadas nesse movimento por luzes na política. Espera-se agora que outas instituições de nível superior federais, fundações privadas e estaduais também se insiram nesse debate, urgente e necessário para a volta da democracia. A outra frente será o movimento secundarista, que nunca fugiu da luta.

Leia matéria completa aqui.





terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Berço de Lata



QQ SEMELHANÇA COM UM ESTADO BRASILEIRO, NÃO É ACASO. "O grupo “Fat Soldiers” é um dos nomes que tem ganhado espaço no rap angolano. Formado por Soldier V, Timomy e Daniel A.K.A.M.P, o grupo começou seu percurso em 2010 com o lançamento da primeira mixtape, “Mentes da Rua”. Com músicas políticas, “Fat Soldiers” tem denunciado a vida dos pobres e dos oprimidos. "Berço de Lata" é o segundo single do disco “Sobreviventes vol. 1”, que consiste em um discurso contra a pobreza, a ignorância e a miséria." F: Soundcloud e Cenas que Curto.

A atualidade em Hannah Arendt


assustadoramente atual. "Eichmann ficava abatido ao visitar os campos de concentração, mas para participar de assassinatos em massa precisava apenas sentar-se em seu gabinete e mexer em seus papéis. Por sua vez, o homem do campo que acionava as câmaras de gás podia justificar a sua conduta dizendo que estava apenas cumprindo ordens superiores. A pessoa que assume total responsabilidade pelo ato evaporou-se. Talvez seja esta a mais comum característica do mal, socialmente organizado, da sociedade moderna.“ STANLEY MILGRAM, Obediência à Autoridade, p. 28.



sábado, 24 de fevereiro de 2018

PLANTANDO E COLHENDO MUITO ALÉM DE FRUTAS


  Ia só lembrar aqui, como registrei outras vezes, o valor de uma horta e um pomar doméstico, para além da saúde mental, das relações de sociabilidade que pode criar; sobre o pé de Araçá aqui de casa, que dá tanto, que, pra não desperdiçar, costumo distribuir aos vizinhos  
- e estes, volta e meia retribuem, generosamente, com alguma fruta ou produção artesanal própria, como o Mateus, que me trouxe há pouco uma bacia de butiás; ou como a minha vizinha Joelma, dias depois de eu deixar-lhe uns araçás para provar, retornou o pote com um belo pedaço de bolo de chocolate. Então, ia falar, de novo, o quanto é valiosa essa cultura de troca, de um “comunismo primitivo” e belo, como lembro bem a colega Márcia Camarano. 



Mas, aí, resolvi aproveitar e buscar alguns comentários, e até uma poesia, retirados de arquivos do próprio Face, desse nível de abordagem da vida local,  a partir de alguns bairros que passei ou morei, os quais reproduzo, com algumas fotos, pela pertinência do que quero tratar; dos valores discretos e silenciosos que nos cercam, incluindo uma poesia sobre um certo bairro da RMPA.

PONTO DE VISTA. Saindo da Orla, avisto uma jovem de uns 15 anos tendo uma leve queda, ao saltar ra calçada para a avenida, em uma  manobra de skate arriscada. Após ouvir dela, diante de minha manifesta preocupação, q está tudo bem, pergunto se não há pista de skate no povoado, ao q ela dispara: "Tem não, aqui nesse Francês não tem nada". Olho pra ela e o imenso mar verde q tem atrás de si e fico em um silêncio confuso entre a lástima e a admiração. (Marechal Deodoro, Al, junho, 2016)


 NO INTERIOR DE SP, HÁ UNS 10 ANOS, MOREI EM UMA RUA CHAMADA ALAMEDA DAS AZALEIAS, NO BAIRRO CHAMADO CIDADE JARDIM, ONDE CADA RUA TEM O NOME DE UMA ÁRVORE.




ARAÇÁ MADURINHO, DIRETO DO PÉ? TEMOS! Sim, a Natureza é generosa com todos, ainda q o capitalismo atice o individualismo nos espíritos humanos. Se cada um plantasse um pé de uma fruta ou hortaliça em sua calçada, teríamos uma gigante fruteira a céu aberto, de graça e para todos; mas... (Fevereiro, Alvorada, 2017)


 Um giro do Centro ao Mathias transforma o tempo e a paisagem da alma / Pela tarde, o fervilhar do sábado se transfere para cantos anônimos, mas cheio de vida / Entre o frio seco do shopping e o calor chuvoso dos arredores da rodovia, sorvetes, cinema, churrasquinhos e pés sujos / Transita entre os corpos por aí uma confluência que extravasa a rotina da caixa registradora / As cavidades das testas e as fachadas com janelões descascam frestas de outras Canoas


 / Misturam à paisagem gelada um quente cheiro de saudade / O clima parado e a brisa de silêncio rimam com chimarrão, praça ou calçada; para outros, a sorte no bailão / E na mesa do bar, em meio ao pretexto da cachaça triste, ou da cerveja alegre, se despertam histórias e sorrisos / Que socorrem o coração de uma modernidade apressada e veloz / Vai, então, a imaginação de um trem ao outro, sem pressa de descer na próxima estação / Sob essa sombra do tempo, mais ao Centro, um avião atento vigia a implacável passagem da história / 

Foto: PMC
Debaixo das asas, entre interiores e capitais, um tapete de cimento e piche dá liga às corridas por outros amanhãs... ... de sonhos, medos e mudanças. (Canoas, RS, Jan, 2017)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Cyrano Fernandez


A literatura, como a arte em geral, tem sua perenidade na linguagem universal profunda com que são retratadas certas obras, e isso faz toda a diferença entre um trabalho que modifica olhares e um mero produto da/para indústria cultural. É o que se vê em Cyrano Fernandez (Alberto Arvelo, Venezuela, 2007).  Essa produção latino-americana é uma versão da obra francesa Cyrano de Bergerac, que narra a saga de um militar, pensador e escritor parisiense do século XVII, e que tornou-se um clássico, transposto para a literatura e o cinema por autores de vários Países. A habilidade com as palavras e com a espada (no caso latino, a pistola) é uma dupla qualidade de Cyrano, que contrasta com sua aparência rude, que não seduz sua prima, Roxele (Jessica Grau). Esta, guarda seu amor para Cristian (Pastor Oviedo), o terceiro personagem desse triângulo romântico; nele, Cyrano é cercado pela contingência de assumir o papel de redator das cartas de amor do homem que corteja a mulher que ele ama, mas que sequer imagina a intensidade de seu sentimento. Em meio ao submundo violento do narcotráfico, na periferia de Caracas, Arvelo trabalha com sutileza dos extremos da gangorra da existência, que povoam todos nós: Beleza e Estranheza; Morte e Amor; Violência e Ternura, etc. O ator Edgar Ramirez, nesse aspecto, interpreta com maestria tais bipolaridades.  Nesses tempos de caricaturas políticas e tragédias sociais, é sempre revigorante ver um registro épico adaptado às possibilidades dramáticas que a vida na cidade alcançou, tanto para o bem quanto para o mal.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

DA INTERVENÇÃO ELEITORAL.

Foto: Jornal GGN

"Não existe crime organizado que não tenha chancela, convivência, conivência e conveniência com setores do estado (...) a primeira coisa que não temos é mecanismos de governabilidade das polícias do Brasil (...) é preciso fazer do limão uma limonada; se tem uma intervenção, porque o RJ está ingovernável, é fundamental que se tenha uma auditoria imediata na PM, na PC, no CB e no sistema prisional, e é necessário observação externa e internacional (...) estamos diante de uma temporada de abertura das chantagens corporativas e das negociatas da segurança. Que Deus nos proteja".

Professora Jaqueline Muniz, Dep. Segurança Pública da UFF

Confira entrevista completa aqui.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

"O FINAL FELIZ DEPENDE DE ONDE VOCÊ COLOCA O PONTO”



Uma viagem carregada de incertezas, mudanças e metáforas. Assim é “Qué tan lejos?” (Tânia Hermida, Equador, 2006). Esperanza (Tania Martínez), una turista espanhola, e Tristeza (Cecilia Vallejo), uma acadêmica equatoriana, com objetivos diferentes, se conhecem em uma viagem de ônibus, interrompida pelo protestos na estrada. A partir disso, inicia um percurso de direção incerta pelo interior do Equador. Nos diálogos dessa trajetória, na qual se inserem outros personagens - com destaque para "Jesus" - misturam-se questões de valores, de relacionamento e de família, sempre sob o fundo de paisagens andinas transcendentais; além da fotografia, os contrastes entre as personalidades dos protagonistas é um elemento de interessantes singularidades.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

UMA FILME INFANTIL PARA ADULTOS.

Pra quem cresceu se impressionando com os monstros dos seriados orientais, para os quais sempre havia um herói que derrotasse, "Esperança" (Hope, Korea, 2013) é um chute no fígado; retrata um golpe frio e cruel sobre uma infância indefesa, que faz ter saudades daqueles monstros das séries de TV. Com oito anos, quando estava caminhando rumo a sua escola, em uma manhã chuvosa, So-won (Lee Re), sofre um estupro horrível. Submetida a uma complexa cirurgia, além dos danos físicos, a menina é afetada emocionalmente para sempre. Para superar isso, os pais, com a polícia, os enfermeiros, os vizinhos e os amigos compõe uma rede de apoio, que se torna vital para a recuperação da vítima. Sob uma linguagem metafórica, tanto quanto possível em um drama tão vivo, Hope é um filme que fala de violências, de como uma vítima pode o ser várias vezes, de vários jeitos; mas também fala de esperança, de amor e de renascimentos.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

E O PESSOAL VAI ME PODER ME VER?!















Manhã de domingo de carnaval é silêncio de cemitério na vila e deserto no campinho... mas, pera, nem tanto; ao longe, se move um sujeito em movimentos de trabalho. Se aproximando aos poucos, se confirma do que se trata, é Porquinho. Dá pra identificar também por Elton Quadrado da Silva, ma aí fica mais anônimo ainda.

Porquinho, este sim é o cara que marcou gerações de meninos que corriam nas peladas de futebol do Agriter entre os anos 70 e 80 – entre eles, este que vos escreve . Alguns iniciados por Porquinho no futebol enveredaram até pela carreira profissional; outros, infelizmente, decaíram pela dependência das drogas ilícitas, que concorriam as atenções dos garotos, já naquelas décadas. 

De qualquer modo, é uma multidão de gente que, onde quer que esteja, não pode esquecer desse treinador de timezinhos de várzea, já quase sexagenário, e que ainda segue a sua vida sempre informal, distribuída entre biscates (trabalhos eventuais a domicílio), relacionamentos livres e seus jogos de fim de semana, hoje já na categoria Master.

Na ocasião em que encontrei-lhe, nesta manhã, recolhia a grama solta que cobria toda extensão do campo, que a prefeitura baixou com máquina, mas deixou por cima, e ele, voluntariamente, se pôs a tirar. 

“Vamos precisar do campo pra jogar, comentei com os meninos que estavam ali, se queriam pegar um carrinho pra me ajudar, mas só riram. Se alguém quiser me dar um troco, eu aceito, claro”, comenta ele, sem parar de recolher o mato ainda verde, para encher outro carrinho e levar outra carga para as beiradas do campo. 


O tempo passou, e muitos atletas que ouviram os gritos de Porquinho durante jogos amistosos e oficiais já estão adultos, com famílias, e alguns, pais de novos meninos para correr no mesmo campinho.

Pessoas como Porquinho, em geral, não cabem dentro dos ditames quadrados que a nossa sociedade considera como normal, pois nem sempre se ajustam em conceitos como “Trabalhador Qualificado”, “Chefe de Família”, “Pessoa Direita”, “Bem-Sucedido” ou “Mulher Casada”, “Dona de Casa”, “Mãe Respeitadora”, “Estudante”, e assim por diante. 

Isto porque, por circunstâncias estranhas, às vezes, à si mesmo, percorreram caminhos árduos, em que a luta pela sobrevivência não deixou espaço para mais nada. 


Integram um amplo espectro social suburbano formado por trabalhadores informais, dependentes químicos, alcoólatras, ciganos, donos de bares, pedintes, artesãos, entregadores, andarilhos com deficiência, vendedores, enfim, membros vivos de um território de vida humana, que se confundem com ele, que marcam e contam a memória de um bairro, mas que, em geral, não são reconhecidos pelo que fazem ou se recusam a fazer. Mesmo assim, muitas vezes, não há como lembrar da história de uma rua, de um bairro ou de uma cidade, sem associá-los.

Não pude fazer mais por Porquinho que tomar-lhe alguns minutos de papo, levar uma garrafa de água gelada e prometer-lhe postar uma foto sua como forma de reconhecimento público pela sua iniciativa. E o pessoal vai me poder me ver?! – pergunta, com uma noção meio distante do mundo virtual. Acenei que sim... pelo menos pela tela do computador, pensei.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Do milho, dos milhões e de um momento fecundo

Sebastião Pinheiro*

Eu estava entretido, e muito, com o ensaio de Christopher Hill, "The English Revolution, 1640" escrito 300 anos depois, e atualizado na época do Caesar Eisenhower.

Lá contextualizaba, aos 71 anos, os personagens brasileiros corruptos que "São" no congresso e palácios nacionais primeiro em causa, onde uma valiza de dinheiro não é prova suficiente de corrupção; depois defendendo seus interesses privados por meio de gorjetas Nos três poderes "democráticos" o que se repete religiosamente em muitos outros países no mundo.

O ensaio é cuchia de muitas revoluções. Há outras que correm como rios sem canal ou intermitentes. É possível que o amigo que pregou no facebook: "São eleitos por pessoas que não usam o jornal para lê-lo, mas para se limpar na latrina".

Perdoem-me os historiadores, isto me serve para perceber que a revolução inglesa não é de geração espontânea em uma abiogênese política de John Needham 1713-1781, ela é resultado do tsunami da reforma de Martin Luther. O que houve foi a transferência do poder para aqueles que não usavam o jornal para limpar o...

Na América Latina 500 anos depois o negócio mais rentável é o apoio político de iglegias (de filigreses que não lêem jornais mas continuam a usar como Substitutos de "Milho" (em português sabugo e challas (foto) muito utilizado no campo como papel de jornal ou higiénico; essa e outras mafias estão em todos os lugares tirando dignidade aos multidões, camponeses e cidadãos (palavra ainda de pouco significado na Periferia do mundo).


Em 1981 eu estava em saarbrücken (sarre) quando chegaram dez estudantes do zimbabué, todos jovens e com marcas e comportamento de recém-saídos das frentes de batalha pela independência (zipra), que recebían o prêmio de treinamento alemão. Nos intervalos e finais de semana bebiam cerveja e discutiam sobre a eficiência dos " Janson rifle ", " Banana Magazine " e " G3 "...

O exemplo do zimbabué e o fim de mugabe, na sua forma demuenstra que, mesmo no coração colonial de África com uma nota de cem triliões de dólares (foto) a ética da burocracia de Weber pode ser identificada com a revolução inglesa, que sim Influencia 87 % de anglicanos e protestantes, enquanto a igreja de Roma é inferior a 7 %. Será por isso que a tentativa de 2009 contra mugabe, com os EUA, a Grã-Bretanha e 25 países mais não Teve sucesso?


Minha leitura foi interrompida por um e-mail com a falha do Supremo Tribunal de justiça do México que mantém a proibição da cultura de milho transgénico, a foto é mais do que educacional. Peço permissão para continuar a minha reflexão: conheci o país em 1998 pela questão dos transgénicos. Fui aluno nota máxima em cereais, mas percebi que não sabia quase nada comparado com os 12 mil anos que puseram na minha frente.

Naquela oportunidade ímpar eu disse: - a luta contra os ogm será dada no México dentro de mais ou menos vinte anos. Isso está gravado e há testemunhas.

Lá aprendi a tomar o pozol em santa Elena com o professor calderón; a sopa de pozoles cacahaucintle; conheci o "milho morango" e o puxa, lá de nayarit, mas me senti analfabeto em milho, pior que na latrina sem jornal, challas Ou "Milho". é assim que vejo a elite nacional brasileira que normatiza, veicula informações sobre transgénicos servil ao agronegócio.

Haveria necessidade de falha, onde todos soubessem ler jornais, a constituição e saber que a reforma antes de eliminar o poder Eclesiástico sobre o social, educou a todos para que as decisões colectivas nascerão nos indivíduos e atingir a humanidade e a natureza? (foto)


A falha me fez como no tango argentino: voltar aos dezessete depois de viver um século é como decifrar sinais sem ser sábio competente voltar a ser de repente tão frágil como um segundo voltar a sentir profundo como uma criança face a Deus isso é o Que sinto eu neste momento fecundo..
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*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor

LADRÕES DE DIVERSIDADE


Há um Mundo gastronômico/medicinal generoso, gratuito e gigantesco, cultivado por CIVILIZAÇÕES MILENARES, que o Mercado rouba da Natureza para transformar em marcas e devolver, via lucro, só para CONSUMIDORES.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A EBC da Era Temer, uma TV que se nega

Quando um Governo, delegitimado, usa sua estrutura para negar o próprio País, o estado vira uma arma contra o Povo, e a TV Pública se torna a ponta desse cano; mas, vez por outra, o tiro sai pela culatra.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“O contrario da natureza socializada é a socialização da destruição da natureza”


Da montagem: No Méx existe o santo protetor dos narcotraficantes San Jesús Malverde, muito cultuado e culturado.  Pus cara de caboclo no próprio para trazer luz aos nativos. [*Nota do autor]

Sebastião Pinheiro*
Ao retornar dos estudos na Alemanha Federal, um território militarmente ocupado, trouxemos elementos interessantes sobre a Sociedade Industrial Moderna, sua ideologia muito bem delineada no manifesto futurista, o que a eles muito custou desde a unificação (1871).

Tardamos quase 40 anos para entender a América Latina e Brasil no, agora, ANTROPOCENO EUROCENTRISTA, onde o camponês/operário transforma fótons em cadeias de Carbono dos Alimentos roubado pelas autoridades.

Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti, Le Fígaro, Fevereiro de 1909

"Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas - empaste de escórias metálicas, de suores inúteis, de fuligens celestes -, contundidos e enfaixados os braços, mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:

1. Queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.

3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.

4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.

5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.

6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e magnificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.

9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias, pelas quais se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétrica: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este País de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.

Há muito tempo que a Itália vem sendo um mercado de belchiores. Queremos libertá-la dos incontáveis museus que a cobrem de cemitérios inumeráveis.

Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao lado de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos dos matadouros dos pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!

Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério dos mortos, tudo bem. Que uma vez por ano se desponte uma coroa de flores diante da Gioconda, vá lá. Mas não admitimos passear diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?

E que se pode ver num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivalente a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projetá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de ação.

Quereis, pois, desperdiçar todas as vossas melhores forças nessa eterna e inútil admiração do passado, da qual saís fatalmente exaustos, diminuídos e espezinhados?

Em verdade eu vos digo que a frequentação quotidiana dos museus, das bibliotecas e das academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registros de lances truncados!...) é, para os artistas, tão ruinosa quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens embriagados, vá lá: o admirável passado é talvez um bálsamo para tantos os seus males, já que para eles o futuro está barrado... Mas nós não queremos saber dele, do passado, nós, jovens e fortes futuristas!

Bem-vindos, pois, os alegres incendiários com os seus dedos carbonizados! Ei-los!... Aqui!... Ponham fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: resta-nos assim, pelo menos um decênio mais jovens e válidos que nós deitarão no cesto de papéis, como manuscritos inúteis. - Pois é isso que queremos!

Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente, às portas das academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefação, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.

Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste telheiro tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aviões trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje, flamejando sob o voo das nossas imagens.

Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais implacável quanto os seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.

A forte e sã injustiça explodirá radiosa em seus olhos - A arte, de fato, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente, delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais trazer as ameaças repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Os nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados? É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Erectos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!

Vós nos opondes objeções?... Basta! Basta! Já as conhecemos... Já entendemos!... Nossa bela e hipócrita inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. - Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!… Cabeça erguida!...

Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas."

Desejamos que faças o contraponto com o aforismo de von Goethe sobre a “Teoria da Natureza” para perceber ambos significados para as comunidades de camponeses que se levantaram na Revolução Francesa (1760 - 1772); os escravagistas da, Revolução Norte-Americana (1771-1776; os camponeses e indígenas da Revolução Mexicana (1910 -1919), e finalmente as Revoluções Cubana (1959) e Iraniana (1979). Caso não concorde rogamos que leia o livro:

“A Sociedade do Risco para uma nova Modernidade, de Ulrich Beck de 1986, de onde extraímos estes trechos:

“Contra as ameaças da natureza exterior aprendemos a construir cabanas e acumular conhecimentos. Pelo contrario, estamos quase entregues sem proteções às ameaças industriais da segunda natureza incluída no sistema industrial. Os perigos se converteram em policiais do consumo normal. Viajam com o vento e com a água, estão presentes em tudo e atravessam com o mais necessário para a vida (o ar, o alimento, a roupa, os móveis) todas as zonas protegidas da modernidade, que estão controladas tão estritamente. Onde após o acidente estão excluídas a defesa e a prevenção, só resta como atividade (aparentemente) única: negar, uma tranquilidade que dá medo e de desenvolve sua agressividade na medida que os afetados são condenados à passividade. Este resto de atividade à vista do resto do risco existente realmente tem na não-imaginibilidade e impercepitibilidade do perigo seus cúmplices mais poderosos. O contrario da natureza socializada é a socialização da destruição da natureza, sua transformação em ameaças sociais, econômicas e políticas do sistema de sociedade mundial superindustrializada.” ...

“A história da divisão dos riscos mostra que estes seguem, igual às riquezas, o esquema e classes, mas ao revés: As riquezas se acumulam em cima e os riscos em baixo. Portanto, os riscos parecem fortalecer e não suprimir a Sociedade de classes... A miséria é hierárquica, e o smog é democrático.”

“A evidencia da miséria impede a percepção dos riscos: mas só sua percepção, não sua realidade nem seu efeito: Os riscos negados crescem especialmente bem e rápido. Em um nível determinado da produção social que se caracteriza pelo desenvolvimento da indústria química (mas também pela tecnologia nuclear, a microeletrônica e a tecnologia genética), o predomínio da lógica, os conflitos da produção da riqueza e, portanto, a indivisibilidade social da sociedade do risco não são uma prova da irrealidade desta, senão ao contrário: São um motor de seu surgimento e portanto uma prova de sua realidade.”

“Frente a eles, a crítica da ciência e os medos ao futuro são estigmatizados como “irracionais”. Eles seriam – se diz – as autenticas causas de todos os males. Pois o risco formaria parte do progresso, igual que a onda de proa do barco em alto mar. O risco não seria uma invenção da Idade Moderna, e incluso seria aceito em muitos âmbitos da vida social.”

“Da Solidariedade da miséria à solidariedade do medo? …. o movimento que se póe em marcha com a sociedade do risco se expressa na frase: Tenho medo! Em lugar da comunidade da miséria aparece a comunidade do medo. Neste sentido, o tipo da sociedade do risco marca uma época social na que a solidariedade surge por medo e se converte numa força política.”

“Esta distinção na afetação pelas posições de classe e de risco é essencial. Falando de maneira esquemática e precisa, em posições de classe o Ser determina a consciência, enquanto que em situações de risco sucede ao contrário, a consciência determina o Ser.”

“Um truque de magica aberta: Os valores limites de tolerância… Já que os cientistas nunca estão desprevenidos, tem para sua própria ignorância muitos termos, muitos métodos, muitas cifras. Um conceito chave para o “eu tampouco sei” no trato com riscos é o conceito de “valores limites de tolerância”… Ainda que os valores limite de tolerância evitem o pior, supõe a vez uma “carta branca” para envenenar um pouco à natureza e ao homem. Aqui não vamos nos ocupar do fato que os valores, também valores limites de tolerância, não foram em seu dia um assunto de química senão de ética”. ...Os valores limites de tolerancia o pouco de envenenamento traz normalidade.”

“… as reflexões precedentes significam: O final da contraposição entre natureza e sociedade. Dito: A Natureza já não pode ser pensada sem a Sociedade e a sociedade já não pode ser pensada sem a natureza.”

Ainda mais, quando nela o camponês ultrassocial necessita tansformar o Sol em cadeias de Carbono para os alimentos e é mantido na ignorância por uma academia incompetente, servil e vaidosa submetida aos desígnios da Indústria Internacional de Alimentos (Complexo Agroindustrial Militar de Eisenhower, 1954), que lhe nega existência.
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*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Do Zé Paraíba e de outros rapazes latino-americanos



Acabei de ver, ontem (em gotas), As aventuras de um Paraíba (Marco Altberg, 1982). É a história de Zé (Caíque Ferreira), um nordestino, é recebido no Rio de Janeiro por seu amigo Zé Preto (Lourival Félix), que o acolhe em casa. Zé arranja trabalhos e biscates como pode, seja na construção civil, pedindo esmola em frente a uma igreja ou até mesmo participando de um programa de TV. Até que um dia conhece Branca (Cláudia Ohana), uma jovem cega que ele salva de ser atropelada. O desfecho demarca um final de duplo amor - entre o amigo e mulher amada. O filme tem aspectos caricaturais, tanto do nordestino, quanto do RJ. Mas precisa ser contextualizado. Início dos anos 80 era tempos de sede de abertura. Havia uma ideia geral sobre o nordestino reduzido ao cara que desce para o sul para vencer na vida; e o RJ como um paraíso da permissividade. Mmas a violência - sempre ela - já está ali, retratada cruamente. De qualquer modo, o filme me trouxe a lembrança de alguns nordestinos que conheci, e que tive uma conivência e aprendizado. Um deles, foi o Cigano. Não era 1982, mas 14 anos depois. Por meados dos anos 90, durante alguns meses, eu morei em uma pensão na Cristóvão Colombo, uma Cabeça de Porco, como chamam os nordestinos para esses quartos de aluguel de quinta categoria. Foi a primeira vez que morava fora da casa de meus pais. Ali, pelos meus 25 anos, convivi com figuras interessantes - uma evangélica, um leão de chácara (segurança de boate), uma prostituta, os irmãos mineiros, suspeitos de roubar roupas, entre outras personagens atípicas. Aprendi muito com eles. Sobre sobrevivência, medo e saudade. Cigano era uma dessas pessoas. Portiguar, ariano, cozinheiro expert, tinha um estilo ponta de faca. Era tudo ou nada. Como todos ali, passava por uma fase difícil da vida, mas dizia sempre que "vou dar a volta por cima e ter minha lanchonete". Cansado de suas noites resumidas a trabalho e música à noite, resolveu começar a fazer algo. Em sociedade com um dos irmãos mineiros, começou a produzir salgados na pensão. Um fogão precário, um espaço precário, com utensílios precários. Mas ele era bom, e a coisa acontecia. Ocorre que, lá pelas tantas, se desentendeu com o mineirinho e, conversando comigo, me propôs ser seu sócio. Eu, que já tinha dois empregos, de dia e na madrugada, além da faculdade, resolvi topar, dentro de minhas condições limitadas. Na primeira noite, então, ajudei-lhe no que pude no que sabia.  E o resultado foi uma quantidade razoável de coxinhas, que ficaram atraentes e apetitosas. Colocamos em um isopor limpo e saímos pelas entradas das baladas e boates da Farrapos. Não demoroau para a decepção começar. Ninguém queria saber de comer, só perguntavam pela tal cerveja. Naturalmente, o horário, pelas 22h, convidava mais a isso. Mas, por uma falha de nossa estratégia empreendedora, desprezamos a bebida. E deu no que deu. 2h depois, prosseguíamos com a maioria das cerca de umas 30 a 50 coxinhas que preparamos. Foi aí que o cigano disparou, mais ou menos assim: "Não vou dar o gostinho do deboche àquela loira [dona da pensão]. Vamos comer tudo que puder antes de voltar". Daí, sentamos na beira da calçada, ali mesmo por onde estávamos. E se dedicamos a comer coxinha. Não lembro quantas, mas sei que matei pra lá da vontade de consumir esse salgado naquele dia. E a sobra ele distribuiu entre a galera da pensão. Chamou-me a atenção, já naquela ocasião, o orgulho de cigano, tão forte quanto a sua determinação. Lá foram 20 anos e perdi o contato dele e de todos com que morei naquele lugar. Mas lembranças daquelas pessoas e do momento que atravessei estão vivíssimas e me voltaram quando vi As aventuras de um paraíba. O personagem de Caíque Ferreira, talentoso ator falecido jovem, concentrava essa energia de reinventar-se e superar-se do nordestino, pessoas como nós – a obviedade poetizada por Belchior. Mas, além disso, essa lealdade forte da amizade que se desenvolve a partir do encontro de pessoas de uma diáspora comum. É algo, que, não raro, se joga a própria vida. No caso do filme de Altberg a pegada foi interessante, porque pôs, lado a lado, o amor romântico e o amor da amizade. Ambos fortes e dramáticos, ainda que só um deles cultivado ao nível do desapego. Há algumas cenas no filme que retratam bem isso. Quanto ao Cigano, espero voltar a ver-lhe um dia. Enquanto isso, o cinema e as memórias compensam a ausência.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O REPOUSO DO GUERREIRO





Era o início dos anos 90, quando as gestões petistas tornavam Porto Alegre modelo de participação e transparência para o Brasil e o Mundo - Orçamento Participativo (Olívio/Tarso); aula pública de Hobsbawm no Glênio Peres (Pilla Vares na SMC); Construtivismo (Esther Grossi na SME) e tantas outras experiências de políticas públicas inovadoras, que renderam um cinturão vermelho de governos do partido pela RMPA e o País. Por esse período, o PMdB de Temer/Sartori também já havia mostrado seu modo de governar, com as longas greves no governo Simon/Guazelli, e o triste episódio, com este último, do Massacre da Praça da Matriz, em 1991. Eu estudava Economia, era líder comunitário e militava no PCB - aos 20 e poucos, naqueles ventos de abertura, óbvio, mudar o Mundo era centro e norte. Enquanto isso, em Alvorada, a 20km da Capital, o PT despontava com um só vereador na bancada, que fazia sua ação valer por 10: Flávio Silva, ou flavinho, pioneiro do partido no parlamento local, raramente era visto em gabinete. Sempre com qualificados assessores, como Vitório Trovão, percorria, diariamente, conselhos populares, a Metroplan, o Daer, as universidades e as organizações civis, acionando a mobilização popular e colecionando conquistas. Na área de transporte público, a sua atuação resultou na abertura de acessos à gerações de trabalhadores e estudantes, em itinerários que o monopólio local, pela pouca lucratividade, ainda desprezava: Ipiranga, NH e Protázio, por exemplo, que hoje são rotas de volumosas demandas de passageiros, e que contribuíram para integrar a cidade às zonas Leste e Oeste da capital e à Região. Tive a honra de integrar uma dessas mobilizações, ainda quando membro do DAH, na Fapa (hoje, Uniritter). Meio Ambiente e serviços urbanos eram outras das frentes de atuação de Flávio. Em um trabalho em sintonia com as gestões, já operantes, de Stela Beatriz Farias Lopes, mobilizava ativistas pela proteção das matas ciliares da Lagoa do Cocão e do Rio Gravataí. Foram três ou quatro mandatos de lutas e vitórias. Mas o tempo passou, e de lá pra cá, os anseios políticos dos brasileiros também se modificaram - para o bem e para o mal. Capitalismo x Socialismo, então, deixou de resumir a utopia da juventude (a q n envelheceu precocemente), ainda que seus ares permaneçam vivos das bases às cúpulas - Trump e Puttin que o digam. E nesse cenário, o transporte público de massa tornou-se o único caminho estrutural possível para responder à altura ao verdadeiro colapso que o trânsito desenha para o futuro do presente das metrópoles brasileiras - mesmo que gestores públicos míopes ignorem isso. Flávio, por sua vez, de sua fase reflexiva, observa distante, ainda que sempre inquieto e indignado. "A política está na nossa veia, porque queremos melhorar a vida". E assim fez, e assim teima em fazer. Sob a chuva fria do fim da tarde desta quinta-feira, na cozinha de sua modesta e histórica morada, na região central da cidade que cresceu e se dedicou, falemos das transformações do cenário sócio-econômico; entre uma interrupção e outra de amigos e vendedores, conversamos também sobre as suas duas décadas e meia de empresário noturno (pós-parlamentar), vendo a cidade por outros ângulos; percorremos lembranças e recuperamos esperanças, de mudanças de ares e de política - a possível, urgente e necessária nesses tempos de perspectivas temerosas e parceladas.