quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“O contrario da natureza socializada é a socialização da destruição da natureza”


Da montagem: No Méx existe o santo protetor dos narcotraficantes San Jesús Malverde, muito cultuado e culturado.  Pus cara de caboclo no próprio para trazer luz aos nativos. [*Nota do autor]

Sebastião Pinheiro*
Ao retornar dos estudos na Alemanha Federal, um território militarmente ocupado, trouxemos elementos interessantes sobre a Sociedade Industrial Moderna, sua ideologia muito bem delineada no manifesto futurista, o que a eles muito custou desde a unificação (1871).

Tardamos quase 40 anos para entender a América Latina e Brasil no, agora, ANTROPOCENO EUROCENTRISTA, onde o camponês/operário transforma fótons em cadeias de Carbono dos Alimentos roubado pelas autoridades.

Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti, Le Fígaro, Fevereiro de 1909

"Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas - empaste de escórias metálicas, de suores inúteis, de fuligens celestes -, contundidos e enfaixados os braços, mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:

1. Queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.

3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.

4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.

5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.

6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e magnificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.

9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias, pelas quais se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétrica: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este País de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.

Há muito tempo que a Itália vem sendo um mercado de belchiores. Queremos libertá-la dos incontáveis museus que a cobrem de cemitérios inumeráveis.

Museus: cemitérios!... Idênticos, realmente, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos onde se repousa sempre ao lado de seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos dos matadouros dos pintores e escultores que se trucidam ferozmente a golpes de cores e linhas ao longo de suas paredes!

Que os visitemos em peregrinação uma vez por ano, como se visita o cemitério dos mortos, tudo bem. Que uma vez por ano se desponte uma coroa de flores diante da Gioconda, vá lá. Mas não admitimos passear diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa mórbida inquietude. Por que devemos nos envenenar? Por que devemos apodrecer?

E que se pode ver num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se empenhou em infringir as insuperáveis barreiras erguidas contra o desejo de exprimir inteiramente o seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivalente a verter a nossa sensibilidade numa urna funerária, em vez de projetá-la para longe, em violentos arremessos de criação e de ação.

Quereis, pois, desperdiçar todas as vossas melhores forças nessa eterna e inútil admiração do passado, da qual saís fatalmente exaustos, diminuídos e espezinhados?

Em verdade eu vos digo que a frequentação quotidiana dos museus, das bibliotecas e das academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registros de lances truncados!...) é, para os artistas, tão ruinosa quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens embriagados, vá lá: o admirável passado é talvez um bálsamo para tantos os seus males, já que para eles o futuro está barrado... Mas nós não queremos saber dele, do passado, nós, jovens e fortes futuristas!

Bem-vindos, pois, os alegres incendiários com os seus dedos carbonizados! Ei-los!... Aqui!... Ponham fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: resta-nos assim, pelo menos um decênio mais jovens e válidos que nós deitarão no cesto de papéis, como manuscritos inúteis. - Pois é isso que queremos!

Nossos sucessores virão de longe contra nós, de toda parte, dançando à cadência alada dos seus primeiros cantos, estendendo os dedos aduncos de predadores e farejando caninamente, às portas das academias, o bom cheiro das nossas mentes em putrefação, já prometidas às catacumbas das bibliotecas.

Mas nós não estaremos lá... Por fim eles nos encontrarão - uma noite de inverno - em campo aberto, sob um triste telheiro tamborilado por monótona chuva, e nos verão agachados junto aos nossos aviões trepidantes, aquecendo as mãos ao fogo mesquinho proporcionado pelos nossos livros de hoje, flamejando sob o voo das nossas imagens.

Eles se amotinarão à nossa volta, ofegantes de angústia e despeito, e todos, exasperados pela nossa soberba, inestancável audácia, se precipitarão para matar-nos, impelidos por um ódio tanto mais implacável quanto os seus corações estiverem ébrios de amor e admiração por nós.

A forte e sã injustiça explodirá radiosa em seus olhos - A arte, de fato, não pode ser senão violência, crueldade e injustiça.

Os mais velhos dentre nós têm 30 anos: no entanto, temos já esbanjado tesouros, mil tesouros de força, de amor, de audácia, de astúcia e de vontade rude, precipitadamente, delirantemente, sem calcular, sem jamais hesitar, sem jamais trazer as ameaças repousar, até perder o fôlego... Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Os nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estão nutridos de fogo, de ódio e de velocidade!... Estais admirados? É lógico, pois não vos recordais sequer de ter vivido! Erectos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas!

Vós nos opondes objeções?... Basta! Basta! Já as conhecemos... Já entendemos!... Nossa bela e hipócrita inteligência nos afirma que somos o resultado e o prolongamento dos nossos ancestrais. - Talvez!... Seja!... Mas que importa? Não queremos entender!... Ai de quem nos repetir essas palavras infames!… Cabeça erguida!...

Eretos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas."

Desejamos que faças o contraponto com o aforismo de von Goethe sobre a “Teoria da Natureza” para perceber ambos significados para as comunidades de camponeses que se levantaram na Revolução Francesa (1760 - 1772); os escravagistas da, Revolução Norte-Americana (1771-1776; os camponeses e indígenas da Revolução Mexicana (1910 -1919), e finalmente as Revoluções Cubana (1959) e Iraniana (1979). Caso não concorde rogamos que leia o livro:

“A Sociedade do Risco para uma nova Modernidade, de Ulrich Beck de 1986, de onde extraímos estes trechos:

“Contra as ameaças da natureza exterior aprendemos a construir cabanas e acumular conhecimentos. Pelo contrario, estamos quase entregues sem proteções às ameaças industriais da segunda natureza incluída no sistema industrial. Os perigos se converteram em policiais do consumo normal. Viajam com o vento e com a água, estão presentes em tudo e atravessam com o mais necessário para a vida (o ar, o alimento, a roupa, os móveis) todas as zonas protegidas da modernidade, que estão controladas tão estritamente. Onde após o acidente estão excluídas a defesa e a prevenção, só resta como atividade (aparentemente) única: negar, uma tranquilidade que dá medo e de desenvolve sua agressividade na medida que os afetados são condenados à passividade. Este resto de atividade à vista do resto do risco existente realmente tem na não-imaginibilidade e impercepitibilidade do perigo seus cúmplices mais poderosos. O contrario da natureza socializada é a socialização da destruição da natureza, sua transformação em ameaças sociais, econômicas e políticas do sistema de sociedade mundial superindustrializada.” ...

“A história da divisão dos riscos mostra que estes seguem, igual às riquezas, o esquema e classes, mas ao revés: As riquezas se acumulam em cima e os riscos em baixo. Portanto, os riscos parecem fortalecer e não suprimir a Sociedade de classes... A miséria é hierárquica, e o smog é democrático.”

“A evidencia da miséria impede a percepção dos riscos: mas só sua percepção, não sua realidade nem seu efeito: Os riscos negados crescem especialmente bem e rápido. Em um nível determinado da produção social que se caracteriza pelo desenvolvimento da indústria química (mas também pela tecnologia nuclear, a microeletrônica e a tecnologia genética), o predomínio da lógica, os conflitos da produção da riqueza e, portanto, a indivisibilidade social da sociedade do risco não são uma prova da irrealidade desta, senão ao contrário: São um motor de seu surgimento e portanto uma prova de sua realidade.”

“Frente a eles, a crítica da ciência e os medos ao futuro são estigmatizados como “irracionais”. Eles seriam – se diz – as autenticas causas de todos os males. Pois o risco formaria parte do progresso, igual que a onda de proa do barco em alto mar. O risco não seria uma invenção da Idade Moderna, e incluso seria aceito em muitos âmbitos da vida social.”

“Da Solidariedade da miséria à solidariedade do medo? …. o movimento que se póe em marcha com a sociedade do risco se expressa na frase: Tenho medo! Em lugar da comunidade da miséria aparece a comunidade do medo. Neste sentido, o tipo da sociedade do risco marca uma época social na que a solidariedade surge por medo e se converte numa força política.”

“Esta distinção na afetação pelas posições de classe e de risco é essencial. Falando de maneira esquemática e precisa, em posições de classe o Ser determina a consciência, enquanto que em situações de risco sucede ao contrário, a consciência determina o Ser.”

“Um truque de magica aberta: Os valores limites de tolerância… Já que os cientistas nunca estão desprevenidos, tem para sua própria ignorância muitos termos, muitos métodos, muitas cifras. Um conceito chave para o “eu tampouco sei” no trato com riscos é o conceito de “valores limites de tolerância”… Ainda que os valores limite de tolerância evitem o pior, supõe a vez uma “carta branca” para envenenar um pouco à natureza e ao homem. Aqui não vamos nos ocupar do fato que os valores, também valores limites de tolerância, não foram em seu dia um assunto de química senão de ética”. ...Os valores limites de tolerancia o pouco de envenenamento traz normalidade.”

“… as reflexões precedentes significam: O final da contraposição entre natureza e sociedade. Dito: A Natureza já não pode ser pensada sem a Sociedade e a sociedade já não pode ser pensada sem a natureza.”

Ainda mais, quando nela o camponês ultrassocial necessita tansformar o Sol em cadeias de Carbono para os alimentos e é mantido na ignorância por uma academia incompetente, servil e vaidosa submetida aos desígnios da Indústria Internacional de Alimentos (Complexo Agroindustrial Militar de Eisenhower, 1954), que lhe nega existência.
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*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Do Zé Paraíba e de outros rapazes latino-americanos



Acabei de ver, ontem (em gotas), As aventuras de um Paraíba (Marco Altberg, 1982). É a história de Zé (Caíque Ferreira), um nordestino, é recebido no Rio de Janeiro por seu amigo Zé Preto (Lourival Félix), que o acolhe em casa. Zé arranja trabalhos e biscates como pode, seja na construção civil, pedindo esmola em frente a uma igreja ou até mesmo participando de um programa de TV. Até que um dia conhece Branca (Cláudia Ohana), uma jovem cega que ele salva de ser atropelada. O desfecho demarca um final de duplo amor - entre o amigo e mulher amada. O filme tem aspectos caricaturais, tanto do nordestino, quanto do RJ. Mas precisa ser contextualizado. Início dos anos 80 era tempos de sede de abertura. Havia uma ideia geral sobre o nordestino reduzido ao cara que desce para o sul para vencer na vida; e o RJ como um paraíso da permissividade. Mmas a violência - sempre ela - já está ali, retratada cruamente. De qualquer modo, o filme me trouxe a lembrança de alguns nordestinos que conheci, e que tive uma conivência e aprendizado. Um deles, foi o Cigano. Não era 1982, mas 14 anos depois. Por meados dos anos 90, durante alguns meses, eu morei em uma pensão na Cristóvão Colombo, uma Cabeça de Porco, como chamam os nordestinos para esses quartos de aluguel de quinta categoria. Foi a primeira vez que morava fora da casa de meus pais. Ali, pelos meus 25 anos, convivi com figuras interessantes - uma evangélica, um leão de chácara (segurança de boate), uma prostituta, os irmãos mineiros, suspeitos de roubar roupas, entre outras personagens atípicas. Aprendi muito com eles. Sobre sobrevivência, medo e saudade. Cigano era uma dessas pessoas. Portiguar, ariano, cozinheiro expert, tinha um estilo ponta de faca. Era tudo ou nada. Como todos ali, passava por uma fase difícil da vida, mas dizia sempre que "vou dar a volta por cima e ter minha lanchonete". Cansado de suas noites resumidas a trabalho e música à noite, resolveu começar a fazer algo. Em sociedade com um dos irmãos mineiros, começou a produzir salgados na pensão. Um fogão precário, um espaço precário, com utensílios precários. Mas ele era bom, e a coisa acontecia. Ocorre que, lá pelas tantas, se desentendeu com o mineirinho e, conversando comigo, me propôs ser seu sócio. Eu, que já tinha dois empregos, de dia e na madrugada, além da faculdade, resolvi topar, dentro de minhas condições limitadas. Na primeira noite, então, ajudei-lhe no que pude no que sabia.  E o resultado foi uma quantidade razoável de coxinhas, que ficaram atraentes e apetitosas. Colocamos em um isopor limpo e saímos pelas entradas das baladas e boates da Farrapos. Não demoroau para a decepção começar. Ninguém queria saber de comer, só perguntavam pela tal cerveja. Naturalmente, o horário, pelas 22h, convidava mais a isso. Mas, por uma falha de nossa estratégia empreendedora, desprezamos a bebida. E deu no que deu. 2h depois, prosseguíamos com a maioria das cerca de umas 30 a 50 coxinhas que preparamos. Foi aí que o cigano disparou, mais ou menos assim: "Não vou dar o gostinho do deboche àquela loira [dona da pensão]. Vamos comer tudo que puder antes de voltar". Daí, sentamos na beira da calçada, ali mesmo por onde estávamos. E se dedicamos a comer coxinha. Não lembro quantas, mas sei que matei pra lá da vontade de consumir esse salgado naquele dia. E a sobra ele distribuiu entre a galera da pensão. Chamou-me a atenção, já naquela ocasião, o orgulho de cigano, tão forte quanto a sua determinação. Lá foram 20 anos e perdi o contato dele e de todos com que morei naquele lugar. Mas lembranças daquelas pessoas e do momento que atravessei estão vivíssimas e me voltaram quando vi As aventuras de um paraíba. O personagem de Caíque Ferreira, talentoso ator falecido jovem, concentrava essa energia de reinventar-se e superar-se do nordestino, pessoas como nós – a obviedade poetizada por Belchior. Mas, além disso, essa lealdade forte da amizade que se desenvolve a partir do encontro de pessoas de uma diáspora comum. É algo, que, não raro, se joga a própria vida. No caso do filme de Altberg a pegada foi interessante, porque pôs, lado a lado, o amor romântico e o amor da amizade. Ambos fortes e dramáticos, ainda que só um deles cultivado ao nível do desapego. Há algumas cenas no filme que retratam bem isso. Quanto ao Cigano, espero voltar a ver-lhe um dia. Enquanto isso, o cinema e as memórias compensam a ausência.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O REPOUSO DO GUERREIRO





Era o início dos anos 90, quando as gestões petistas tornavam Porto Alegre modelo de participação e transparência para o Brasil e o Mundo - Orçamento Participativo (Olívio/Tarso); aula pública de Hobsbawm no Glênio Peres (Pilla Vares na SMC); Construtivismo (Esther Grossi na SME) e tantas outras experiências de políticas públicas inovadoras, que renderam um cinturão vermelho de governos do partido pela RMPA e o País. Por esse período, o PMdB de Temer/Sartori também já havia mostrado seu modo de governar, com as longas greves no governo Simon/Guazelli, e o triste episódio, com este último, do Massacre da Praça da Matriz, em 1991. Eu estudava Economia, era líder comunitário e militava no PCB - aos 20 e poucos, naqueles ventos de abertura, óbvio, mudar o Mundo era centro e norte. Enquanto isso, em Alvorada, a 20km da Capital, o PT despontava com um só vereador na bancada, que fazia sua ação valer por 10: Flávio Silva, ou flavinho, pioneiro do partido no parlamento local, raramente era visto em gabinete. Sempre com qualificados assessores, como Vitório Trovão, percorria, diariamente, conselhos populares, a Metroplan, o Daer, as universidades e as organizações civis, acionando a mobilização popular e colecionando conquistas. Na área de transporte público, a sua atuação resultou na abertura de acessos à gerações de trabalhadores e estudantes, em itinerários que o monopólio local, pela pouca lucratividade, ainda desprezava: Ipiranga, NH e Protázio, por exemplo, que hoje são rotas de volumosas demandas de passageiros, e que contribuíram para integrar a cidade às zonas Leste e Oeste da capital e à Região. Tive a honra de integrar uma dessas mobilizações, ainda quando membro do DAH, na Fapa (hoje, Uniritter). Meio Ambiente e serviços urbanos eram outras das frentes de atuação de Flávio. Em um trabalho em sintonia com as gestões, já operantes, de Stela Beatriz Farias Lopes, mobilizava ativistas pela proteção das matas ciliares da Lagoa do Cocão e do Rio Gravataí. Foram três ou quatro mandatos de lutas e vitórias. Mas o tempo passou, e de lá pra cá, os anseios políticos dos brasileiros também se modificaram - para o bem e para o mal. Capitalismo x Socialismo, então, deixou de resumir a utopia da juventude (a q n envelheceu precocemente), ainda que seus ares permaneçam vivos das bases às cúpulas - Trump e Puttin que o digam. E nesse cenário, o transporte público de massa tornou-se o único caminho estrutural possível para responder à altura ao verdadeiro colapso que o trânsito desenha para o futuro do presente das metrópoles brasileiras - mesmo que gestores públicos míopes ignorem isso. Flávio, por sua vez, de sua fase reflexiva, observa distante, ainda que sempre inquieto e indignado. "A política está na nossa veia, porque queremos melhorar a vida". E assim fez, e assim teima em fazer. Sob a chuva fria do fim da tarde desta quinta-feira, na cozinha de sua modesta e histórica morada, na região central da cidade que cresceu e se dedicou, falemos das transformações do cenário sócio-econômico; entre uma interrupção e outra de amigos e vendedores, conversamos também sobre as suas duas décadas e meia de empresário noturno (pós-parlamentar), vendo a cidade por outros ângulos; percorremos lembranças e recuperamos esperanças, de mudanças de ares e de política - a possível, urgente e necessária nesses tempos de perspectivas temerosas e parceladas.




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

ESPELHOS MÁGICOS




Há salvadores da água, do fogo e dos vírus. E há também alguns tipos anônimos, que salvam da violência urbana. Pelo mar das periferias ser bem hostil e complexo, para mergulhar nele é preciso ir mais fundo que o corpo: no contexto e na alma. Adalberto P Alegre, experiente navegador nesse oceano, escolheu a imagem como ferramenta para atuar sobre as cabeças de jovens de famílias em situação de de alta vulnerabilidade. Tem feito isso há décadas, e com prazer. Com um histórico de pai de quatro filhos, guarda-municipal, sindicalista, instrutor de serigrafia nas periferias de Porto Alegre, professor de história e de artes visuais, Adalba não se aquieta na base: pesquisa, cria, adapta e transita entre o teórico e a realidade crua; entre a academia e o barraco. Telas, pinhole, celular, produtos e suportes alternativos, vale tudo, tudo é meio. Suas oficinas de fotografia aplicada ao ensino, paralelas ao trabalho na escola, atraem professores, pesquisadores e profissionais de arte, do sul ao norte. Mas não perde o foco. "Íamos em cada casa, levávamos um café e conhecíamos, por dentro, a realidade daquelas crianças, e dali, transformei profundamente o meu olhar como professor; dizia aos meus colegas: o mau-cheiro de alguns deles é muito mais do que uma questão de água e luz, é condição, é autoestima, é esperança. Precisamos descer muito, com humildade e respeito, antes de diagnosticar o que nos é estranho", falava-me ontem, em um agradável café de lembranças e vivências, que tivemos em seu ateliê, no último andar de um prédio discreto, no Centro de Porto Alegre. "Salvamos muitas vidas, e tenho orgulho disso", comenta, sem nenhuma arrogância. Em poucas horas, viajamos no tempo e no espaço - educação, morte, política, fotografia, cinema, e claro, boas lembranças das nosso passado-presente comum na Casa do Estudante da Ufrgs. Risos às lágrimas. Essas voos curtos com pessoas raras sempre nos renovam.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PROVOCAÇÕES DO TIÃO - Sobre revisões, negociadores, salsichas e bugios



Sebastião Pinheiro*

Pouca tristeza é bobagem. Viva a Volkswagen no Brasil.

Poucos dias antes de falecer minha esposa, orgulhosa cliente da automobilística, com seus 15 automóveis VW zero KM, não por vaidade, mas por necessidade, já que eu sempre estava viajando. Carro velho com criança pequena é problema sério.

Bem, ela recomendou que eu fizesse a segunda revisão. O carro fora comprado em nosso último verão em Março de 2015 e a primeira revisão foi calculada pela agência vendedora Panambra, Azenha ocorreria em Setembro de 2016 quando alcançaria 10 mil KM. Sentindo os efeitos da grave enfermidade que padecia e por minha viagem à Chihuahua México ela embarcou para o Canadá para despedir da nossa filha. Voltou ao Brasil em Dezembro e solicitou que eu levasse o carro à Unidos S.A (Jardim Botânico) para a primeira revisão, embora o mesmo estivesse com 5.300 KM.

Eu levei pela primeira vez em 46 anos de casado o carro para revisão, mas compreendi pela debilidade da doença. A concessionária considerou fora de prazo a revisão e cobrou a mão de obra. Sim capitalismo japonês é outra coisa. Uma de suas últimas recomendações, foi faça a revisão.

Faleceu em 04 de Março próximo passado e mergulhei em um turbilhão absurdo com gastos que nunca imaginei que existisse, documentos e burocracia de enlouquecer. Isso que não temos praticamente bens ou posse, mas, o inventário, contas em bancos, certidões é algo que todos deveriam fazer um curso, pois se tem 60 dias para resolver. O pior que o carro um Gol Special com seguro total tinha um problema, pois dizia que tinha 4 portas, quando na verdade tem duas. Mais stress e recalculo do valor do seguro e troca de segurado.

O inventário ficou pronto preliminarmente no final de maio, mas o carro só foi liberado no DETRAN em 06 de Junho. No dia 20 de Junho, ao retornar do nordeste, fui fazer a segunda revisão debilitado pelos gastos e crise econômica. Deixei na Unidos S.A. por recomendação da falecida e comodidade no trânsito. Como a revisão foi orçada em 600 reais solicitamos que não a fizesse, pois não havia dinheiro em casa e fui buscar o mesmo imediatamente.

Minhas agruras pareciam haver passado com o depósito de parte do 13º salário e pude agendar na outra concessionária onde o carro havia sido adquirido, a Panambra Azenha, mas ao apresentar-me e visto que o carro estava com 6.000 KM foi dito que não deveria ter sido cobrada a mão de obra na primeira vistoria e que a segunda sairia por 250 reais aproximadamente. No Japão, e também no interior de São Paulo, o júbilo se expressa com Teno Keika Banzai, mas alegria de pobre dura pouco.

Ao olhar o livro de garantia do veículo havia uma rasura agressiva com o carimbo da Unidos S.A. (Jardim Botânico) e foi-me dito que não podiam fazer a revisão, pois o livro estava inutilizado no local destinado à mesma.

Voltei à Unidos imediatamente e um dos responsáveis pelo planta de sábado tirou cópias eletrostática do livro e solicitou que eu fosse na segunda feira à primeira hora que seria resolvido. Naquela mesma tarde fiz uma carta e passei para as duas concessionárias mas não conseguir remeter para a VW , pois não conseguia acessar o contacto via web da empresa.

Na segunda-feira, fui recebido de forma ríspida e dito que em duas semanas me dariam um novo livro. Alertei que minha reclamação havia sido enviada por e-mail. Ao chegar em casa na caixa de e-mail estava a solicitação da Unidos S.A para que eu fosse imediatamente à empresa buscar o livro. Má vontade é outra coisa. Lá compareci e me foi entregue dizendo que eu devia leva-lo para carimbar na Panambra S.A. (Azenha), como se eu tivesse cometido o erro e responsável em solucionar.

Com os dois livros fui à Panambra S.A. (Azenha) deixei o carro para a revisão e alertei para a necessidade de carimbar o livro novo. As 19 horas recebi o telefonema pelo celular do Sr. Eric com muitas voltas e firulas para dizer que a “quarta revisão” sairia por 1.560 reais. De chore perguntei quando devia ir retirar o carro. Ele queria negociar, ao que foi peremptoriamente interrompido: - Não negocio com tal tipo de gente, pois para mim revisão é segurança e uma concessionária não é lugar de negociação e sim atender os objetivos da empresa que lhe outorga a concessão.

Retirei o carro, mas antes perguntei se haviam carimbado o “novo” livro da venda do mesmo. Foi dito de forma soberba que só seria carimbado se fosse feita a revisão.

Comuniquei-me via 0800 em 25 de Julho com a VW e através do protocolo 01292627, o atendente muito educado, M. Giacometti solicitou cinco dias para a solução.

Aguardei e diante de nenhuma resposta postei carta registrada nos Correios à VW.

Resolvo comunicar aos amigos do Facebook para servir de precaução pedagógica, afinal, os alemães tem o ditado "Tudo na vida tem um fim, somente a salsicha tem dois" (foto).



Estava a escrever esta carta e soou o telefone da VW perguntando se alguém das concessionárias havia feito comunicação. Diante da dupla negativa me indicou que devo ir à concessionária Panambra e levar o livro para que eles coloquem o selo de venda.

Eu estou com 70 anos, mas muito bem disposto e nada senil. Não disponho de tempo para consertar cagadas de empresas incompetentes por treinar mau seus funcionários. Os soviéticos usavam a palavra “aparatchik” designando os indivíduos servis aos superiores e déspota com os subalternos.

Infelizmente me considero o antípoda, um gambá ou bugio.




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*Engenheiro Agrônomo, ambientalista e escritor

domingo, 6 de agosto de 2017

DAS CICATRIZES CUTUCADAS NA AMÉRICA LATINA




Aula de história da América Latina, em forma de carta; e também uma aula sobre a [triste] construção democrática por esta Região.

"Que país pode ser verdadeiramente independente com bases militares dos Estados Unidos em seu território? (...) O senhor já é responsável por cada morte na Venezuela."

Jornalista dá aula de América Latina em carta aberta**

Jornalista Stella Calloni decide escrever carta diante do posicionamento da OEA frente a acontecimentos na Venezuela
Stella Calloni*

Buenos Aires (Argentina), 05 de Agosto de 2017 às 16:35


A jornalista e escritora argentina Stella Calloni escreveu uma carta aberta ao Secretário Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, uma verdadeira aula de história sobre Nossa América, que deve ser lida por todos os que vivem nesta região e não aceitam a manipulação da informação diária produzida pela mídia comercial conservadora.


Senhor Luis Leonardo Almagro,


Sou simplesmente uma mulher da América Latina, jornalista, escritora e o conheci quando era chanceler do presidente José “Pepe” Mujica no Uruguai, Não espero que se lembre.

Mas, que diferenças daqueles momentos aos que hoje estamos vivendo! Agora o senhor é Secretário Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) que ainda continua sendo uma espécie de Ministério das Colônias. E nestes momentos parece ser mais do que nunca, ainda que nem todos nossos países sejam manipulados como em outros tempos.

Por isso, diante do que está vivendo nossa região, e em estas horas a Venezuela, cujo povo acaba  de demonstrar a verdade que ocultam os monopólios midiáticos votando em peso nos representantes populares para a Assembleia Constituinte, decidi lhe escrever esta carta.Também diante da impotência pela impunidade com que se está tentando destruir o projeto mais avançado de integração emancipatória que tínhamos conquistado. Essa grande esperança da unidade de Nossa América, que tanto nos custou: um genocídio no século XX, golpes de Estado, invasões, saques e a dependência eterna da potência imperial que nos declarou seu “pátio traseiro”.

Neste século XXI estávamos dando passos gigantescos com o objetivo de recuperar nossa independência definitiva, castrada nos fins do século XIX pela expansão imperial,“o Destino Manifesto”, a doutrina Monroe, todos documentos coloniais que seguem sendo básicos nos projetos atuais dos Estados Unidos contra nós. Os sempre submissos sócios ou aliados por interesses de todos os governos estadunidenses, as direitas locais, acompanharam as ditaduras militares no continente e agora continuam sendo o mesmo batalhão perdido do império.

Havíamos conseguido um avanço extraordinário, nossa voz era ouvia alta e o senhor sabe, tínhamos a possibilidade pela   primeira vez de formar unitariamente um bloco não para dominar e atacar ninguém, mas para defendermos juntos; declararmos finalmente livres de toda dependência e manejar nossos grandes recursos em favor de nossos castigados povos. Também significava o resgate de identidades e culturas ocultas pela sobrevivência colonial em nossa vida cotidiana.

Estados Unidos, diante de seus fracassos no que atuou contra o governo e o povo venezuelano com as estratégias e táticas de guerra contra-insurgente em seus novos traçados, decidiu golpear primeiro e ao mesmo tempo os  três países chaves no traçado da integração: Venezuela, Argentina e o Brasil.

Houve esperanças quando o senhor foi eleito por consenso de 33 de 34 países para ocupar a Secretaria Geral da OEA que assumiu em maio de 2015. Havia sido o senhor chanceler do governo do presidente José “Pepe” Mujica, do Movimento de Participação Popular e da Frente Ampla. Como não confiariam no senhor, apesar de que nos últimos tempos na chancelaria começaram a advertir sobre algumas mudanças em suas ações?

Um homem da terra do herói latino-americano José Gervasio de Artigas, da Frente Ampla que sobreviveu aos tempos da ditadura e chegou finalmente ao governo pela via eleitoral pela primeira vez impondo a vontade do povo. Como o senhor não ia defender a Nossa América?

“Aos senhores, como representantes dos povos das Américas, devo, e os agradeço pelo seu voto de confiança”. Foram suas palavras.

Agora estamos vendo o “outro” Almagro, o que lamentavelmente se converteu na cabeça diplomática e política do golpismo que desde há muito mais de quatro anos assola a Venezuela.

O senhor conhece muito bem o que os governos do falecido presidente Hugo Chávez Frías e seu seguidor Nicolás Maduro conquistaram nesse país, onde 80 por cento de venezuelanos viviam na pobreza no início deste século. O governo Chávez produziu uma profunda mudança revolucionária e suas decisões no econômico, político e social foram reconhecidos por organismos internacionais: a eliminação da extrema pobreza, derrota do analfabetismo, ações sociais inéditas nesse país petrolífero, a recuperação dos recursos naturais, a criação de “missões” que fizeram um extraordinário trabalho em favor da população venezuelana, escapando da tragédia das burocracias criadas pelos velhos poderes dependentes, e uma política externa cujo eixo essencial era e é a unidade regional, a solidariedade e o respeito a todos os direitos dos países livres e soberanos.

A Venezuela nos trouxe o pensamento contra-hegemônico do século XXI, o bolivarianismo, que satisfaz a todos. Quem ignora que Chávez foi propulsor ardente da integração e da solidariedade? Agora esse país está submetido a uma guerra contra-insurgente, dirigida desde os Estados Unidos.

O senhor sabe perfeitamente como ocorreram todos os processos de desestabilização em  Nossa América. É impossível que os desconheça, já que viveu em seu país e nos arredores. Ou por acaso há diferenças no desabastecimento programado pela ultra-direita fascista chilena e a CIA estadunidense contra o governo de Salvador Allende, nos anos 70 , com o que aconteceu na Venezuela a partir da morte de Chávez?

Nesses momentos, o golpismo - que nunca deixou de estar presente nesse país depois do fracassado golpe de abril de 2002, derrotado em 48 horas por um povo nas ruas e um setor patriota das Forças Armadas - foi incentivado. Ocorreram uma série de sabotagens e tentativas golpistas e uma permanente conspiração de Washington que além disso investiu milhões de dólares para manter organizada a direita fascista venezuelana.

A participação dos Estados Unidos não só está documentada como inclusive foi admitida  abertamente por seus governantes. O chamado “golpe eterno” se fortaleceu com a morte do  presidente Hugo Chávez em março de 2013. Em Washington se pensava que morrendo um líder com essas características seria muito  fácil avançar sobre seu sucessor, neste caso Nicolás Maduro, quem em 14 de abril de 2013 ganhou as eleições em meio de um ataque de guerra cibernética e de uma campanha demolidora e mentirosa da imprensa majoritariamente em mãos do setor privado e golpista.

Nessa mesma noite o chefe da Mesa da Unidade Democrática e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles Radonsky exortou seus seguidores a sair às ruas e incendiar Caracas, sob alegação de fraude. Apareceram as forças de choque, os motorizados que produziram incêndios, ataques a instituições, mas o mais doloroso, resultou em 13 mortos e dezenas de feridos.

E isso continuou ao longo de 2014. O ano de 2015 começou com mais sabotagens, assassinatos e ataques terroristas, Em 12 de fevereiro a ex-deputada ultra-direitista María Corina Machado acompanhou o dirigente da Vontade Popular Leopoldo López - ambos com vínculos com a CIA e os setores fundamentalistas dos Estados Unidos - quando se anunciou pela televisão a tomada das ruas de Caracas, com conclamações de rebeliões e com uma linguagem de extrema violência para executar o projeto golpista “A Saída”.

López assegurou então que permaneceriam nas ruas até a derrubada do presidente e isso significou um salto qualitativo nas “guarimbas” em quanto ao uso da violência, tratando de provocar mortes e os maiores danos possíveis para levar ao caos e obrigar a renúncia de Maduro. Contavam com um muito bem organizado apoio externo e midiático.

O senhor sabe perfeitamente que os meios de comunicação manipulados pelo poder hegemônico em 95 por cento, para assegurar a desinformação, a desculturização  e a dominação dos povos são hoje uma peça chave para as Guerras de Baixa Intensidade e de Quarta Geração, que estão acontecendo na Venezuela e em Nossa América, com a cooperação da Organização dos Estados Americanos. 

López já havia participado ativamente no golpe de Estado de 2002. O plano “A Saída” utilizando ataques de extrema violência e franco atiradores, em uma aliança com paramilitares colombianos deixou 43 mortos e 800 feridos, dos quais cerca de 200 sofrem algum tipo de invalidez, dezenas de edifícios incendiados, e danos milionários no país 

O que o senhor acha, senhor Almagro, o que aconteceria em Washington se algo do gênero ocorresse? O que acredita que faria o governo  dos Estados Unidos diante de uma situação semelhante?

Agora há mais de 90 dias, em setores claramente demarcados e não em todas as ruas nem em todo o país, como querem fazer crer os meios de desinformação midiáticos, se desenvolvem ações de extrema violência, com grupos de choques, entre os quais se juntam jovens, inclusive meninos, “contratados” por dinheiro e drogas, delinquentes comuns (bucha de canhão, como se diz), e paramilitares colombianos, cujas ações resultaram mais de 100 mortos. Trata-se de levar a violência a seus extremos limites queimando edifícios, centros de saúde, universidades, caminhões com alimentos e remédios e levar a uma guerra civil. A Venezuela não tem o direito de defesa?

Isso é um golpe de estado em desenvolvimento, que é apresentado ao mundo como “marchas pacíficas” da oposição, que foi convocada ao diálogo permanentemente pelo governo, e que criou obstáculos para sentar-se em uma mesa pela paz, porque os Estados Unidos necessitam com urgência quebrar a Venezuela, depois do golpe de estado, judicial, parlamentar e midiático ocorrido no Brasil.

A derrubada da presidenta Dilma Rousseff sem causa alguma, com a violência da mentira e falsas acusações, em agosto de 2016, evidenciou a intervenção de setores da justiça que em toda região  foram cooptados por Washington, um Parlamento corrupto e a guerra midiática. Similar aos golpes em Honduras (2009) e Paraguai (2012).

Para o senhor não existiu esse golpe no Brasil, e agora se apoia no presidente ilegítimo Michel Temer para atuar contra Venezuela, ou no argentino Mauricio Macri, que chegou ao governo por via eleitoral em dezembro de 2015, em eleições marcadas pela ingerência externa, a guerra midiática que não deu trégua e os milhões de dólares que foram repartidos, também no Brasil, por meio de Fundações estadunidenses e sua rede de Organizações Não Governamentais. Na Argentina, se instalou abertamente uma “força de  Tarefa” do Fundo de Paul Singer, que confessou abertamente a necessidade de se desfazer da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, nas eleições de outubro de 2015. A maioria dos ministros do presidente Macri, cuja Fundação Pensar, depende diretamente da Heritage dos Estados Unidos, pertencem a fundações similares e possibilitaram que Washington seja o verdadeiro poder por detrás do trono. Esse governo está levando totalitariamente o país a uma severa crise entregando a soberania nacional, destruindo todos os programas sociais, culturais, educativos, científicos e humanitários, e provocando uma perseguição política, judicial e também midiática.

São esses os governos “democráticos” em que o senhor se apoia, para tratar de derrubar  Nicolás Maduro, justificando política e diplomaticamente a violência criminosa na Venezuela. E, além disso, o México que desde 2006 quando se instalou a falsa guerra contra o narcotráfico, que dirige Washington, se registram cerca de 200 mil mortos e pelo menos 40 mil desaparecidos. Ou ainda a Colômbia onde se firmou o acordo de paz, entre o governo e as antigas guerrilhas, mas a cada dia continuam assassinando líderes sociais, indígenas, defensores de pobres e dos direitos  humanos. Que país pode ser verdadeiramente independente com bases militares dos Estados Unidos em seu território?

Em Honduras continua o golpe de junho de 2009 e o terror encoberto em uma falsa democracia, o mesmo acontece no Paraguai depois do golpe. Isso é apenas uma sintética mostra da realidade latino-americana, em momentos em que também o governo estadunidense age contra Cuba, onde havia começado uma aproximação diplomática com Washington. E também sobre a Bolívia, Equador, Nicarágua, El Salvador e se pressiona os países caribenhos. 

É possível que um Secretário Geral da OEA desconheça tais situações e realidades?

A generosidade da Venezuela com todos, mas especialmente com os países pequenos  da região, para resolver as assimetrias e até uma integração profunda, é outra realidade, que parece o senhor desconhece. Os povos caribenhos tão desapreciados pelos poderosos e outras nações com dignidade rejeitam a ingerência externa contra o governo venezuelano. Seu país, Uruguai entre eles.

Momento extraordinário foi o fim do ano  de 2011 quando se consolidou a Comunidade de Nações Latino-Americanas e Caribenhas (CELAC). Todos juntos pela primeira vez na história. Isso é que acelerou as ações dos Estados Unidos sobre a nossa região e o fato de que encontraram tanta resistência na Venezuela, os obrigou a atuar cada dia com maior violência e impunidade, qualificando os governantes que governam para seus povos  como  “ditadores” e transformando as vítimas em algozes com a ajuda dos meios de comunicação conservadores que desinformam.

O chamado “golpe brando” está sendo difícil de aplicar a esses latino-americanos insubmissos que têm uma obstinada decisão de finalmente libertar-se e que na década passada havíamos cometido o sacrilégio de nos colocarmos de pé e falar com a nossa própria voz.

Agora o senhor tem a oportunidade de impedir que triunfem os verdadeiros terroristas que estão  assolando a Venezuela e reconhecer uma Assembleia Constituinte democrática cujos representantes o povo elegeu, o que significa um caminho de paz, não de guerra. Mas os Estado Unidos, só vê a enorme reserva petrolífera venezuelana e outros recursos, que agigantam seu delirante sonho de controlar o mundo e recolonizar seu “pátio traseiro”. Ou seja, nós. 

O senhor já é responsável por cada morte na Venezuela.

Senhor Almagro: Quantas mais vidas acredita que devemos pagar para ser autenticamente livres e independentes? Não traía a sua pátria. Defenda o direito dos povos de Nossa América de ser livres.

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Edição: *com tradução de Mario Augusto Jakobskind
**Reproduzido do Brasil de Fato.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ruas de Porto Alegre, em três tempos

Chamada para a mobilização, em memória à Greve de 1917.  Condomínio Baltimore, nostalgia de um cinema, ocupado pela especulação imobiliária - o "Aquarius" (2016) da vida real, e a escadaria 24 de maio, inspirada na criação célebre do chileno Selarón, e trazida à Porto Alegre pelas mãos da artista Clarissa Motta.






domingo, 16 de julho de 2017

A Servidão Moderna



Discrição própria do documentário lançado em 2009:


"A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais. Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado, se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir. Para que esta tragédia absurda possa ter lugar, foi necessário tirar desta classe a consciência de sua exploração e de sua alienação. Aí está a estranha modernidade da nossa época. Contrariamente aos escravos da antiguidade, aos servos da Idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje em dia frente a uma classe totalmente escravizada, só que não sabe, ou melhor, não quer saber. Eles ignoram o que deveria ser a única e legítima reação dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que se planejou para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça." (Wiki)


País origem: França


Direção: Jean-François Brient1 Victor León Fuentes1



domingo, 9 de julho de 2017

Provocações do Tião - EFEMÉRIDES

Sebastião Pinheiro*

O termo acima significa diário com datas, logo lembranças, rememorações;

Por exemplo, no dia 08 de Outubro de 1801 Toussaint L’ Overture apresentou a constituição ao imperador Napoleão Bonaparte, com a declaração de liberdade dos escravos na Ilha Hispaniola, e na guerra derrotará o general Leclerc, genro do imperador, mas, posteriormente, será prisioneiro e morrerá em um presídio em Grenoble.



35 anos depois do ensaio “O Fim da História, de F. Fukuyama, e a Globalização, iniciada na primavera austral de 1986, a Rodada Uruguai, vivemos a hegemonia do agronegócio e seus abcessos de pus, premonição do Ministro da Agricultura quando do lançamento do Programa Agro+, em 28 de Agosto de 2016: “O melhor fiscal é o mercado” - ignorando as recomendações do escroque George Soros:

“O mercado é global, mas a Sociedade não, o que torna impossível a construção de uma nova moral e ética”.

Catorze (14) milhões de desempregados terão o aumento de dezenas de milhares, com o efeito cascata a partir da suspensão da importação de carne brasileira pelos EUA.

Atordoado, saí de casa e viajei à Amazônia, rumo à Benevides e Cametá, convidado pelos irmãos André e Ronaldo Freitas, colegas técnicos em Agricultura e cultuadores da ética e moral dessas escolas de formação humana.

Agora, novos hileanos, enriquecendo suas raízes pampeanas, logo cabanos pelo trabalho invejável com as forças vivas e povo.

Antes, na semana do Meio Ambiente, ao assistir à “avant premiére” do filme de Daniela Sallet e Juan Zapata, “Substantivo Feminino”, voltei às efemérides amazônicas vividas de 1983 à 1984, de muita devastação, medo, angustia do Agente Laranja.

Caires D’Avila já não estão há muito entre nós. Janary Valente sofreu uma cirurgia no cérebro e ficou deficiente, mas saber da morte da heroína, Pastora Marga Roth, me chocou. Me salvou a vida, pelo menos duas vezes; me fez conhecer os padres franceses Francisco Gouriou e Aristides Camio, enquadrados na Lei de Segurança Nacional: Meu respeito a todos camponeses covardemente tombados (GEBAM-GETAT).

Efeméride é registro, dignidade através da memória e tempo.

No dia 04 presente, saí do frio rumo à Benevides para contato com o povo da floresta que protege a Sociobiodiversidade, que o alimenta e permite evoluir e não perder a referência, que aprendi com a Seleta de Theobaldo Miranda dos Santos. Me diverti ao perguntar o que é um “pé de bode” e “jacá”.



No primeiro evento, conseguimos sentir o palpitar do nosso primeiro coração, o solo hileano.

A visão das balsas me fizeram reviver a saga nos caminhos desde Vila do Conde, Acará, Moju, Tailândia, Nova Jacundá, Arraias, Tucuruí, Breu Branco, Chiqueirão, Jatobal e Ilha Tocantins e todo o levantamento epidemiológico junto com os alunos da Escola de Saúde Pública da SESPA.


No segundo evento, na Casa Família Rural de Cametá, chegamos para a construção do Biopoder Camponês à partir do nosso primeiro coração.

Na primeira viagem já havia percebido que na Amazônia inexiste a palavra “não”, assim como a expressão “é meu”. Bruce Rich em seu livro The uphold the World (A call for a new global Ethic from ancient India) explica isso através da expressão “More feel for less World is a fool bargain”. Ri com minhas tripas, pois não é preciso ir à tão longe para encontrar amor e compromisso.

Adam Smith escreveu os livros “The theory of moral sentiments” e a “Riqueza das Nações”, pela imensidão da selva o hileano é obrigado à humildade e forja seu comportamento, pois é impossível separar um livro do outro, o que é bastante raro nas populações dos outros biomas.

Daí o brilho nos olhos dos camponeses, seus filhos, professores e toda a sociedade local.

A canção de Violeta Parra “Volver a los 17” explica este olhar, pelo que agradeço a acolhida pela Casa Familiar Rural de Cametá. Trabalhei muito com as EFAS do MEPES e dormi no local da casa do Padre Anchieta tendo por companhia uma bela cuíca, que já não se conhece.

Na CFR de Cametá me foi permitido aprender a fazer “Água de Vidro” para fortificar as plantas; “Cromatografua de Pfeiffer”, um cardiograma do solo; “Peletização de Sementes”; “Fosfito de Potássio”; “Biochar”; “Calda Sulfocálcia” e idealizar o “Campo de Metagenômica” que Danielle, Quincas e Josimar com galhardia apresentaram aos seus pares no IFPA/UFPA/UEPA. O filósofo Quincas ao ser apelidado respondeu “Berro D’água”, vocábulo do português arcaico, ainda usado no espanhol, significando o agrião, na imensidão de água da Amazônia há muita filosofia.

Na efeméride, há também o reencontro com os antigos militantes da FEAB e FAEAB os, hoje doutores, professores Acácio e Aldrin, carregando o mesmo ideal da época estudantil e com planos de transformar Cametá em um grande polo agroecológico para barrar a sanha assassina do agronegócios com seus abcessos, pus e expulsão de camponeses cabanos.

Em 1635, Pedro Teixeira iniciou o desbravamento da fronteira amazônica;



em 1673, teve, em uma delas a presença do Padre Vieira, sim, aquele jesuíta dos fenomenais sermões e discursos.




Isso, aquele que teve o “estalo” intelectual. Dizem os livros que em 315 anos ela já fora visitada por uma esquadra do imperador Abu Bakari II do Mali.

Karl Jaspers tem razão, estamos entrando em uma Segunda Idade Eixo, como entre 800 a 200 AC. Isso levará ao desaparecimento da corrupção política de gestão privada, no que é de todos. Novas éticas e morais elevadas fluirão como a selva que ocupa todas as partes, não teme a destruição, pois sabe que a juquira (plantas que nascem no sal - cinzas) a reporá em seu lugar, para o sorriso do Matita Pereira, do Caipora, da Iara e Boitatá.

Escutei o canto e vi o brilho solar dos olhos de milhares Muiraquitãs na lua cheia, amarelada, prenunciando período de seca, já havia visto isso há mais de 4.830 anos durante o cativeiro no Egito.

A missão foi iniciada na alegria tuxaua agroecológica hileana, retornei à casa lembrando o grito no encerramento no Congresso de Agronomia em Belém em 1989: “Murupiara Amazônia e o dia 08 de Outubro nas águas de Altér do Chão no não distante Tapajós onde encontrei a Juquira Candiru (Satyagraha). Ir à Amazônia (escola) é aprender (decifrar) a espiritualidade na vida e conhecer o amor, meus agradecimentos pela oportunidade impar.

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*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor