sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O REPOUSO DO GUERREIRO





Era o início dos anos 90, quando as gestões petistas tornavam Porto Alegre modelo de participação e transparência para o Brasil e o Mundo - Orçamento Participativo (Olívio/Tarso); aula pública de Hobsbawm no Glênio Peres (Pilla Vares na SMC); Construtivismo (Esther Grossi na SME) e tantas outras experiências de políticas públicas inovadoras, que renderam um cinturão vermelho de governos do partido pela RMPA e o País. Por esse período, o PMdB de Temer/Sartori também já havia mostrado seu modo de governar, com as longas greves no governo Simon/Guazelli, e o triste episódio, com este último, do Massacre da Praça da Matriz, em 1991. Eu estudava Economia, era líder comunitário e militava no PCB - aos 20 e poucos, naqueles ventos de abertura, óbvio, mudar o Mundo era centro e norte. Enquanto isso, em Alvorada, a 20km da Capital, o PT despontava com um só vereador na bancada, que fazia sua ação valer por 10: Flávio Silva, ou flavinho, pioneiro do partido no parlamento local, raramente era visto em gabinete. Sempre com qualificados assessores, como Vitório Trovão, percorria, diariamente, conselhos populares, a Metroplan, o Daer, as universidades e as organizações civis, acionando a mobilização popular e colecionando conquistas. Na área de transporte público, a sua atuação resultou na abertura de acessos à gerações de trabalhadores e estudantes, em itinerários que o monopólio local, pela pouca lucratividade, ainda desprezava: Ipiranga, NH e Protázio, por exemplo, que hoje são rotas de volumosas demandas de passageiros, e que contribuíram para integrar a cidade às zonas Leste e Oeste da capital e à Região. Tive a honra de integrar uma dessas mobilizações, ainda quando membro do DAH, na Fapa (hoje, Uniritter). Meio Ambiente e serviços urbanos eram outras das frentes de atuação de Flávio. Em um trabalho em sintonia com as gestões, já operantes, de Stela Beatriz Farias Lopes, mobilizava ativistas pela proteção das matas ciliares da Lagoa do Cocão e do Rio Gravataí. Foram três ou quatro mandatos de lutas e vitórias. Mas o tempo passou, e de lá pra cá, os anseios políticos dos brasileiros também se modificaram - para o bem e para o mal. Capitalismo x Socialismo, então, deixou de resumir a utopia da juventude (a q n envelheceu precocemente), ainda que seus ares permaneçam vivos das bases às cúpulas - Trump e Puttin que o digam. E nesse cenário, o transporte público de massa tornou-se o único caminho estrutural possível para responder à altura ao verdadeiro colapso que o trânsito desenha para o futuro do presente das metrópoles brasileiras - mesmo que gestores públicos míopes ignorem isso. Flávio, por sua vez, de sua fase reflexiva, observa distante, ainda que sempre inquieto e indignado. "A política está na nossa veia, porque queremos melhorar a vida". E assim fez, e assim teima em fazer. Sob a chuva fria do fim da tarde desta quinta-feira, na cozinha de sua modesta e histórica morada, na região central da cidade que cresceu e se dedicou, falemos das transformações do cenário sócio-econômico; entre uma interrupção e outra de amigos e vendedores, conversamos também sobre as suas duas décadas e meia de empresário noturno (pós-parlamentar), vendo a cidade por outros ângulos; percorremos lembranças e recuperamos esperanças, de mudanças de ares e de política - a possível, urgente e necessária nesses tempos de perspectivas temerosas e parceladas.




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

ESPELHOS MÁGICOS




Há salvadores da água, do fogo e dos vírus. E há também alguns tipos anônimos, que salvam da violência urbana. Pelo mar das periferias ser bem hostil e complexo, para mergulhar nele é preciso ir mais fundo que o corpo: no contexto e na alma. Adalberto P Alegre, experiente navegador nesse oceano, escolheu a imagem como ferramenta para atuar sobre as cabeças de jovens de famílias em situação de de alta vulnerabilidade. Tem feito isso há décadas, e com prazer. Com um histórico de pai de quatro filhos, guarda-municipal, sindicalista, instrutor de serigrafia nas periferias de Porto Alegre, professor de história e de artes visuais, Adalba não se aquieta na base: pesquisa, cria, adapta e transita entre o teórico e a realidade crua; entre a academia e o barraco. Telas, pinhole, celular, produtos e suportes alternativos, vale tudo, tudo é meio. Suas oficinas de fotografia aplicada ao ensino, paralelas ao trabalho na escola, atraem professores, pesquisadores e profissionais de arte, do sul ao norte. Mas não perde o foco. "Íamos em cada casa, levávamos um café e conhecíamos, por dentro, a realidade daquelas crianças, e dali, transformei profundamente o meu olhar como professor; dizia aos meus colegas: o mau-cheiro de alguns deles é muito mais do que uma questão de água e luz, é condição, é autoestima, é esperança. Precisamos descer muito, com humildade e respeito, antes de diagnosticar o que nos é estranho", falava-me ontem, em um agradável café de lembranças e vivências, que tivemos em seu ateliê, no último andar de um prédio discreto, no Centro de Porto Alegre. "Salvamos muitas vidas, e tenho orgulho disso", comenta, sem nenhuma arrogância. Em poucas horas, viajamos no tempo e no espaço - educação, morte, política, fotografia, cinema, e claro, boas lembranças das nosso passado-presente comum na Casa do Estudante da Ufrgs. Risos às lágrimas. Essas voos curtos com pessoas raras sempre nos renovam.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PROVOCAÇÕES DO TIÃO - Sobre revisões, negociadores, salsichas e bugios



Sebastião Pinheiro*

Pouca tristeza é bobagem. Viva a Volkswagen no Brasil.

Poucos dias antes de falecer minha esposa, orgulhosa cliente da automobilística, com seus 15 automóveis VW zero KM, não por vaidade, mas por necessidade, já que eu sempre estava viajando. Carro velho com criança pequena é problema sério.

Bem, ela recomendou que eu fizesse a segunda revisão. O carro fora comprado em nosso último verão em Março de 2015 e a primeira revisão foi calculada pela agência vendedora Panambra, Azenha ocorreria em Setembro de 2016 quando alcançaria 10 mil KM. Sentindo os efeitos da grave enfermidade que padecia e por minha viagem à Chihuahua México ela embarcou para o Canadá para despedir da nossa filha. Voltou ao Brasil em Dezembro e solicitou que eu levasse o carro à Unidos S.A (Jardim Botânico) para a primeira revisão, embora o mesmo estivesse com 5.300 KM.

Eu levei pela primeira vez em 46 anos de casado o carro para revisão, mas compreendi pela debilidade da doença. A concessionária considerou fora de prazo a revisão e cobrou a mão de obra. Sim capitalismo japonês é outra coisa. Uma de suas últimas recomendações, foi faça a revisão.

Faleceu em 04 de Março próximo passado e mergulhei em um turbilhão absurdo com gastos que nunca imaginei que existisse, documentos e burocracia de enlouquecer. Isso que não temos praticamente bens ou posse, mas, o inventário, contas em bancos, certidões é algo que todos deveriam fazer um curso, pois se tem 60 dias para resolver. O pior que o carro um Gol Special com seguro total tinha um problema, pois dizia que tinha 4 portas, quando na verdade tem duas. Mais stress e recalculo do valor do seguro e troca de segurado.

O inventário ficou pronto preliminarmente no final de maio, mas o carro só foi liberado no DETRAN em 06 de Junho. No dia 20 de Junho, ao retornar do nordeste, fui fazer a segunda revisão debilitado pelos gastos e crise econômica. Deixei na Unidos S.A. por recomendação da falecida e comodidade no trânsito. Como a revisão foi orçada em 600 reais solicitamos que não a fizesse, pois não havia dinheiro em casa e fui buscar o mesmo imediatamente.

Minhas agruras pareciam haver passado com o depósito de parte do 13º salário e pude agendar na outra concessionária onde o carro havia sido adquirido, a Panambra Azenha, mas ao apresentar-me e visto que o carro estava com 6.000 KM foi dito que não deveria ter sido cobrada a mão de obra na primeira vistoria e que a segunda sairia por 250 reais aproximadamente. No Japão, e também no interior de São Paulo, o júbilo se expressa com Teno Keika Banzai, mas alegria de pobre dura pouco.

Ao olhar o livro de garantia do veículo havia uma rasura agressiva com o carimbo da Unidos S.A. (Jardim Botânico) e foi-me dito que não podiam fazer a revisão, pois o livro estava inutilizado no local destinado à mesma.

Voltei à Unidos imediatamente e um dos responsáveis pelo planta de sábado tirou cópias eletrostática do livro e solicitou que eu fosse na segunda feira à primeira hora que seria resolvido. Naquela mesma tarde fiz uma carta e passei para as duas concessionárias mas não conseguir remeter para a VW , pois não conseguia acessar o contacto via web da empresa.

Na segunda-feira, fui recebido de forma ríspida e dito que em duas semanas me dariam um novo livro. Alertei que minha reclamação havia sido enviada por e-mail. Ao chegar em casa na caixa de e-mail estava a solicitação da Unidos S.A para que eu fosse imediatamente à empresa buscar o livro. Má vontade é outra coisa. Lá compareci e me foi entregue dizendo que eu devia leva-lo para carimbar na Panambra S.A. (Azenha), como se eu tivesse cometido o erro e responsável em solucionar.

Com os dois livros fui à Panambra S.A. (Azenha) deixei o carro para a revisão e alertei para a necessidade de carimbar o livro novo. As 19 horas recebi o telefonema pelo celular do Sr. Eric com muitas voltas e firulas para dizer que a “quarta revisão” sairia por 1.560 reais. De chore perguntei quando devia ir retirar o carro. Ele queria negociar, ao que foi peremptoriamente interrompido: - Não negocio com tal tipo de gente, pois para mim revisão é segurança e uma concessionária não é lugar de negociação e sim atender os objetivos da empresa que lhe outorga a concessão.

Retirei o carro, mas antes perguntei se haviam carimbado o “novo” livro da venda do mesmo. Foi dito de forma soberba que só seria carimbado se fosse feita a revisão.

Comuniquei-me via 0800 em 25 de Julho com a VW e através do protocolo 01292627, o atendente muito educado, M. Giacometti solicitou cinco dias para a solução.

Aguardei e diante de nenhuma resposta postei carta registrada nos Correios à VW.

Resolvo comunicar aos amigos do Facebook para servir de precaução pedagógica, afinal, os alemães tem o ditado "Tudo na vida tem um fim, somente a salsicha tem dois" (foto).



Estava a escrever esta carta e soou o telefone da VW perguntando se alguém das concessionárias havia feito comunicação. Diante da dupla negativa me indicou que devo ir à concessionária Panambra e levar o livro para que eles coloquem o selo de venda.

Eu estou com 70 anos, mas muito bem disposto e nada senil. Não disponho de tempo para consertar cagadas de empresas incompetentes por treinar mau seus funcionários. Os soviéticos usavam a palavra “aparatchik” designando os indivíduos servis aos superiores e déspota com os subalternos.

Infelizmente me considero o antípoda, um gambá ou bugio.




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*Engenheiro Agrônomo, ambientalista e escritor

domingo, 6 de agosto de 2017

DAS CICATRIZES CUTUCADAS NA AMÉRICA LATINA




Aula de história da América Latina, em forma de carta; e também uma aula sobre a [triste] construção democrática por esta Região.

"Que país pode ser verdadeiramente independente com bases militares dos Estados Unidos em seu território? (...) O senhor já é responsável por cada morte na Venezuela."

Jornalista dá aula de América Latina em carta aberta**

Jornalista Stella Calloni decide escrever carta diante do posicionamento da OEA frente a acontecimentos na Venezuela
Stella Calloni*

Buenos Aires (Argentina), 05 de Agosto de 2017 às 16:35


A jornalista e escritora argentina Stella Calloni escreveu uma carta aberta ao Secretário Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, uma verdadeira aula de história sobre Nossa América, que deve ser lida por todos os que vivem nesta região e não aceitam a manipulação da informação diária produzida pela mídia comercial conservadora.


Senhor Luis Leonardo Almagro,


Sou simplesmente uma mulher da América Latina, jornalista, escritora e o conheci quando era chanceler do presidente José “Pepe” Mujica no Uruguai, Não espero que se lembre.

Mas, que diferenças daqueles momentos aos que hoje estamos vivendo! Agora o senhor é Secretário Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) que ainda continua sendo uma espécie de Ministério das Colônias. E nestes momentos parece ser mais do que nunca, ainda que nem todos nossos países sejam manipulados como em outros tempos.

Por isso, diante do que está vivendo nossa região, e em estas horas a Venezuela, cujo povo acaba  de demonstrar a verdade que ocultam os monopólios midiáticos votando em peso nos representantes populares para a Assembleia Constituinte, decidi lhe escrever esta carta.Também diante da impotência pela impunidade com que se está tentando destruir o projeto mais avançado de integração emancipatória que tínhamos conquistado. Essa grande esperança da unidade de Nossa América, que tanto nos custou: um genocídio no século XX, golpes de Estado, invasões, saques e a dependência eterna da potência imperial que nos declarou seu “pátio traseiro”.

Neste século XXI estávamos dando passos gigantescos com o objetivo de recuperar nossa independência definitiva, castrada nos fins do século XIX pela expansão imperial,“o Destino Manifesto”, a doutrina Monroe, todos documentos coloniais que seguem sendo básicos nos projetos atuais dos Estados Unidos contra nós. Os sempre submissos sócios ou aliados por interesses de todos os governos estadunidenses, as direitas locais, acompanharam as ditaduras militares no continente e agora continuam sendo o mesmo batalhão perdido do império.

Havíamos conseguido um avanço extraordinário, nossa voz era ouvia alta e o senhor sabe, tínhamos a possibilidade pela   primeira vez de formar unitariamente um bloco não para dominar e atacar ninguém, mas para defendermos juntos; declararmos finalmente livres de toda dependência e manejar nossos grandes recursos em favor de nossos castigados povos. Também significava o resgate de identidades e culturas ocultas pela sobrevivência colonial em nossa vida cotidiana.

Estados Unidos, diante de seus fracassos no que atuou contra o governo e o povo venezuelano com as estratégias e táticas de guerra contra-insurgente em seus novos traçados, decidiu golpear primeiro e ao mesmo tempo os  três países chaves no traçado da integração: Venezuela, Argentina e o Brasil.

Houve esperanças quando o senhor foi eleito por consenso de 33 de 34 países para ocupar a Secretaria Geral da OEA que assumiu em maio de 2015. Havia sido o senhor chanceler do governo do presidente José “Pepe” Mujica, do Movimento de Participação Popular e da Frente Ampla. Como não confiariam no senhor, apesar de que nos últimos tempos na chancelaria começaram a advertir sobre algumas mudanças em suas ações?

Um homem da terra do herói latino-americano José Gervasio de Artigas, da Frente Ampla que sobreviveu aos tempos da ditadura e chegou finalmente ao governo pela via eleitoral pela primeira vez impondo a vontade do povo. Como o senhor não ia defender a Nossa América?

“Aos senhores, como representantes dos povos das Américas, devo, e os agradeço pelo seu voto de confiança”. Foram suas palavras.

Agora estamos vendo o “outro” Almagro, o que lamentavelmente se converteu na cabeça diplomática e política do golpismo que desde há muito mais de quatro anos assola a Venezuela.

O senhor conhece muito bem o que os governos do falecido presidente Hugo Chávez Frías e seu seguidor Nicolás Maduro conquistaram nesse país, onde 80 por cento de venezuelanos viviam na pobreza no início deste século. O governo Chávez produziu uma profunda mudança revolucionária e suas decisões no econômico, político e social foram reconhecidos por organismos internacionais: a eliminação da extrema pobreza, derrota do analfabetismo, ações sociais inéditas nesse país petrolífero, a recuperação dos recursos naturais, a criação de “missões” que fizeram um extraordinário trabalho em favor da população venezuelana, escapando da tragédia das burocracias criadas pelos velhos poderes dependentes, e uma política externa cujo eixo essencial era e é a unidade regional, a solidariedade e o respeito a todos os direitos dos países livres e soberanos.

A Venezuela nos trouxe o pensamento contra-hegemônico do século XXI, o bolivarianismo, que satisfaz a todos. Quem ignora que Chávez foi propulsor ardente da integração e da solidariedade? Agora esse país está submetido a uma guerra contra-insurgente, dirigida desde os Estados Unidos.

O senhor sabe perfeitamente como ocorreram todos os processos de desestabilização em  Nossa América. É impossível que os desconheça, já que viveu em seu país e nos arredores. Ou por acaso há diferenças no desabastecimento programado pela ultra-direita fascista chilena e a CIA estadunidense contra o governo de Salvador Allende, nos anos 70 , com o que aconteceu na Venezuela a partir da morte de Chávez?

Nesses momentos, o golpismo - que nunca deixou de estar presente nesse país depois do fracassado golpe de abril de 2002, derrotado em 48 horas por um povo nas ruas e um setor patriota das Forças Armadas - foi incentivado. Ocorreram uma série de sabotagens e tentativas golpistas e uma permanente conspiração de Washington que além disso investiu milhões de dólares para manter organizada a direita fascista venezuelana.

A participação dos Estados Unidos não só está documentada como inclusive foi admitida  abertamente por seus governantes. O chamado “golpe eterno” se fortaleceu com a morte do  presidente Hugo Chávez em março de 2013. Em Washington se pensava que morrendo um líder com essas características seria muito  fácil avançar sobre seu sucessor, neste caso Nicolás Maduro, quem em 14 de abril de 2013 ganhou as eleições em meio de um ataque de guerra cibernética e de uma campanha demolidora e mentirosa da imprensa majoritariamente em mãos do setor privado e golpista.

Nessa mesma noite o chefe da Mesa da Unidade Democrática e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles Radonsky exortou seus seguidores a sair às ruas e incendiar Caracas, sob alegação de fraude. Apareceram as forças de choque, os motorizados que produziram incêndios, ataques a instituições, mas o mais doloroso, resultou em 13 mortos e dezenas de feridos.

E isso continuou ao longo de 2014. O ano de 2015 começou com mais sabotagens, assassinatos e ataques terroristas, Em 12 de fevereiro a ex-deputada ultra-direitista María Corina Machado acompanhou o dirigente da Vontade Popular Leopoldo López - ambos com vínculos com a CIA e os setores fundamentalistas dos Estados Unidos - quando se anunciou pela televisão a tomada das ruas de Caracas, com conclamações de rebeliões e com uma linguagem de extrema violência para executar o projeto golpista “A Saída”.

López assegurou então que permaneceriam nas ruas até a derrubada do presidente e isso significou um salto qualitativo nas “guarimbas” em quanto ao uso da violência, tratando de provocar mortes e os maiores danos possíveis para levar ao caos e obrigar a renúncia de Maduro. Contavam com um muito bem organizado apoio externo e midiático.

O senhor sabe perfeitamente que os meios de comunicação manipulados pelo poder hegemônico em 95 por cento, para assegurar a desinformação, a desculturização  e a dominação dos povos são hoje uma peça chave para as Guerras de Baixa Intensidade e de Quarta Geração, que estão acontecendo na Venezuela e em Nossa América, com a cooperação da Organização dos Estados Americanos. 

López já havia participado ativamente no golpe de Estado de 2002. O plano “A Saída” utilizando ataques de extrema violência e franco atiradores, em uma aliança com paramilitares colombianos deixou 43 mortos e 800 feridos, dos quais cerca de 200 sofrem algum tipo de invalidez, dezenas de edifícios incendiados, e danos milionários no país 

O que o senhor acha, senhor Almagro, o que aconteceria em Washington se algo do gênero ocorresse? O que acredita que faria o governo  dos Estados Unidos diante de uma situação semelhante?

Agora há mais de 90 dias, em setores claramente demarcados e não em todas as ruas nem em todo o país, como querem fazer crer os meios de desinformação midiáticos, se desenvolvem ações de extrema violência, com grupos de choques, entre os quais se juntam jovens, inclusive meninos, “contratados” por dinheiro e drogas, delinquentes comuns (bucha de canhão, como se diz), e paramilitares colombianos, cujas ações resultaram mais de 100 mortos. Trata-se de levar a violência a seus extremos limites queimando edifícios, centros de saúde, universidades, caminhões com alimentos e remédios e levar a uma guerra civil. A Venezuela não tem o direito de defesa?

Isso é um golpe de estado em desenvolvimento, que é apresentado ao mundo como “marchas pacíficas” da oposição, que foi convocada ao diálogo permanentemente pelo governo, e que criou obstáculos para sentar-se em uma mesa pela paz, porque os Estados Unidos necessitam com urgência quebrar a Venezuela, depois do golpe de estado, judicial, parlamentar e midiático ocorrido no Brasil.

A derrubada da presidenta Dilma Rousseff sem causa alguma, com a violência da mentira e falsas acusações, em agosto de 2016, evidenciou a intervenção de setores da justiça que em toda região  foram cooptados por Washington, um Parlamento corrupto e a guerra midiática. Similar aos golpes em Honduras (2009) e Paraguai (2012).

Para o senhor não existiu esse golpe no Brasil, e agora se apoia no presidente ilegítimo Michel Temer para atuar contra Venezuela, ou no argentino Mauricio Macri, que chegou ao governo por via eleitoral em dezembro de 2015, em eleições marcadas pela ingerência externa, a guerra midiática que não deu trégua e os milhões de dólares que foram repartidos, também no Brasil, por meio de Fundações estadunidenses e sua rede de Organizações Não Governamentais. Na Argentina, se instalou abertamente uma “força de  Tarefa” do Fundo de Paul Singer, que confessou abertamente a necessidade de se desfazer da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, nas eleições de outubro de 2015. A maioria dos ministros do presidente Macri, cuja Fundação Pensar, depende diretamente da Heritage dos Estados Unidos, pertencem a fundações similares e possibilitaram que Washington seja o verdadeiro poder por detrás do trono. Esse governo está levando totalitariamente o país a uma severa crise entregando a soberania nacional, destruindo todos os programas sociais, culturais, educativos, científicos e humanitários, e provocando uma perseguição política, judicial e também midiática.

São esses os governos “democráticos” em que o senhor se apoia, para tratar de derrubar  Nicolás Maduro, justificando política e diplomaticamente a violência criminosa na Venezuela. E, além disso, o México que desde 2006 quando se instalou a falsa guerra contra o narcotráfico, que dirige Washington, se registram cerca de 200 mil mortos e pelo menos 40 mil desaparecidos. Ou ainda a Colômbia onde se firmou o acordo de paz, entre o governo e as antigas guerrilhas, mas a cada dia continuam assassinando líderes sociais, indígenas, defensores de pobres e dos direitos  humanos. Que país pode ser verdadeiramente independente com bases militares dos Estados Unidos em seu território?

Em Honduras continua o golpe de junho de 2009 e o terror encoberto em uma falsa democracia, o mesmo acontece no Paraguai depois do golpe. Isso é apenas uma sintética mostra da realidade latino-americana, em momentos em que também o governo estadunidense age contra Cuba, onde havia começado uma aproximação diplomática com Washington. E também sobre a Bolívia, Equador, Nicarágua, El Salvador e se pressiona os países caribenhos. 

É possível que um Secretário Geral da OEA desconheça tais situações e realidades?

A generosidade da Venezuela com todos, mas especialmente com os países pequenos  da região, para resolver as assimetrias e até uma integração profunda, é outra realidade, que parece o senhor desconhece. Os povos caribenhos tão desapreciados pelos poderosos e outras nações com dignidade rejeitam a ingerência externa contra o governo venezuelano. Seu país, Uruguai entre eles.

Momento extraordinário foi o fim do ano  de 2011 quando se consolidou a Comunidade de Nações Latino-Americanas e Caribenhas (CELAC). Todos juntos pela primeira vez na história. Isso é que acelerou as ações dos Estados Unidos sobre a nossa região e o fato de que encontraram tanta resistência na Venezuela, os obrigou a atuar cada dia com maior violência e impunidade, qualificando os governantes que governam para seus povos  como  “ditadores” e transformando as vítimas em algozes com a ajuda dos meios de comunicação conservadores que desinformam.

O chamado “golpe brando” está sendo difícil de aplicar a esses latino-americanos insubmissos que têm uma obstinada decisão de finalmente libertar-se e que na década passada havíamos cometido o sacrilégio de nos colocarmos de pé e falar com a nossa própria voz.

Agora o senhor tem a oportunidade de impedir que triunfem os verdadeiros terroristas que estão  assolando a Venezuela e reconhecer uma Assembleia Constituinte democrática cujos representantes o povo elegeu, o que significa um caminho de paz, não de guerra. Mas os Estado Unidos, só vê a enorme reserva petrolífera venezuelana e outros recursos, que agigantam seu delirante sonho de controlar o mundo e recolonizar seu “pátio traseiro”. Ou seja, nós. 

O senhor já é responsável por cada morte na Venezuela.

Senhor Almagro: Quantas mais vidas acredita que devemos pagar para ser autenticamente livres e independentes? Não traía a sua pátria. Defenda o direito dos povos de Nossa América de ser livres.

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Edição: *com tradução de Mario Augusto Jakobskind
**Reproduzido do Brasil de Fato.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ruas de Porto Alegre, em três tempos

Chamada para a mobilização, em memória à Greve de 1917.  Condomínio Baltimore, nostalgia de um cinema, ocupado pela especulação imobiliária - o "Aquarius" (2016) da vida real, e a escadaria 24 de maio, inspirada na criação célebre do chileno Selarón, e trazida à Porto Alegre pelas mãos da artista Clarissa Motta.






domingo, 16 de julho de 2017

A Servidão Moderna



Discrição própria do documentário lançado em 2009:


"A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais. Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado, se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir. Para que esta tragédia absurda possa ter lugar, foi necessário tirar desta classe a consciência de sua exploração e de sua alienação. Aí está a estranha modernidade da nossa época. Contrariamente aos escravos da antiguidade, aos servos da Idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje em dia frente a uma classe totalmente escravizada, só que não sabe, ou melhor, não quer saber. Eles ignoram o que deveria ser a única e legítima reação dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que se planejou para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça." (Wiki)


País origem: França


Direção: Jean-François Brient1 Victor León Fuentes1



domingo, 9 de julho de 2017

Provocações do Tião - EFEMÉRIDES

Sebastião Pinheiro*

O termo acima significa diário com datas, logo lembranças, rememorações;

Por exemplo, no dia 08 de Outubro de 1801 Toussaint L’ Overture apresentou a constituição ao imperador Napoleão Bonaparte, com a declaração de liberdade dos escravos na Ilha Hispaniola, e na guerra derrotará o general Leclerc, genro do imperador, mas, posteriormente, será prisioneiro e morrerá em um presídio em Grenoble.



35 anos depois do ensaio “O Fim da História, de F. Fukuyama, e a Globalização, iniciada na primavera austral de 1986, a Rodada Uruguai, vivemos a hegemonia do agronegócio e seus abcessos de pus, premonição do Ministro da Agricultura quando do lançamento do Programa Agro+, em 28 de Agosto de 2016: “O melhor fiscal é o mercado” - ignorando as recomendações do escroque George Soros:

“O mercado é global, mas a Sociedade não, o que torna impossível a construção de uma nova moral e ética”.

Catorze (14) milhões de desempregados terão o aumento de dezenas de milhares, com o efeito cascata a partir da suspensão da importação de carne brasileira pelos EUA.

Atordoado, saí de casa e viajei à Amazônia, rumo à Benevides e Cametá, convidado pelos irmãos André e Ronaldo Freitas, colegas técnicos em Agricultura e cultuadores da ética e moral dessas escolas de formação humana.

Agora, novos hileanos, enriquecendo suas raízes pampeanas, logo cabanos pelo trabalho invejável com as forças vivas e povo.

Antes, na semana do Meio Ambiente, ao assistir à “avant premiére” do filme de Daniela Sallet e Juan Zapata, “Substantivo Feminino”, voltei às efemérides amazônicas vividas de 1983 à 1984, de muita devastação, medo, angustia do Agente Laranja.

Caires D’Avila já não estão há muito entre nós. Janary Valente sofreu uma cirurgia no cérebro e ficou deficiente, mas saber da morte da heroína, Pastora Marga Roth, me chocou. Me salvou a vida, pelo menos duas vezes; me fez conhecer os padres franceses Francisco Gouriou e Aristides Camio, enquadrados na Lei de Segurança Nacional: Meu respeito a todos camponeses covardemente tombados (GEBAM-GETAT).

Efeméride é registro, dignidade através da memória e tempo.

No dia 04 presente, saí do frio rumo à Benevides para contato com o povo da floresta que protege a Sociobiodiversidade, que o alimenta e permite evoluir e não perder a referência, que aprendi com a Seleta de Theobaldo Miranda dos Santos. Me diverti ao perguntar o que é um “pé de bode” e “jacá”.



No primeiro evento, conseguimos sentir o palpitar do nosso primeiro coração, o solo hileano.

A visão das balsas me fizeram reviver a saga nos caminhos desde Vila do Conde, Acará, Moju, Tailândia, Nova Jacundá, Arraias, Tucuruí, Breu Branco, Chiqueirão, Jatobal e Ilha Tocantins e todo o levantamento epidemiológico junto com os alunos da Escola de Saúde Pública da SESPA.


No segundo evento, na Casa Família Rural de Cametá, chegamos para a construção do Biopoder Camponês à partir do nosso primeiro coração.

Na primeira viagem já havia percebido que na Amazônia inexiste a palavra “não”, assim como a expressão “é meu”. Bruce Rich em seu livro The uphold the World (A call for a new global Ethic from ancient India) explica isso através da expressão “More feel for less World is a fool bargain”. Ri com minhas tripas, pois não é preciso ir à tão longe para encontrar amor e compromisso.

Adam Smith escreveu os livros “The theory of moral sentiments” e a “Riqueza das Nações”, pela imensidão da selva o hileano é obrigado à humildade e forja seu comportamento, pois é impossível separar um livro do outro, o que é bastante raro nas populações dos outros biomas.

Daí o brilho nos olhos dos camponeses, seus filhos, professores e toda a sociedade local.

A canção de Violeta Parra “Volver a los 17” explica este olhar, pelo que agradeço a acolhida pela Casa Familiar Rural de Cametá. Trabalhei muito com as EFAS do MEPES e dormi no local da casa do Padre Anchieta tendo por companhia uma bela cuíca, que já não se conhece.

Na CFR de Cametá me foi permitido aprender a fazer “Água de Vidro” para fortificar as plantas; “Cromatografua de Pfeiffer”, um cardiograma do solo; “Peletização de Sementes”; “Fosfito de Potássio”; “Biochar”; “Calda Sulfocálcia” e idealizar o “Campo de Metagenômica” que Danielle, Quincas e Josimar com galhardia apresentaram aos seus pares no IFPA/UFPA/UEPA. O filósofo Quincas ao ser apelidado respondeu “Berro D’água”, vocábulo do português arcaico, ainda usado no espanhol, significando o agrião, na imensidão de água da Amazônia há muita filosofia.

Na efeméride, há também o reencontro com os antigos militantes da FEAB e FAEAB os, hoje doutores, professores Acácio e Aldrin, carregando o mesmo ideal da época estudantil e com planos de transformar Cametá em um grande polo agroecológico para barrar a sanha assassina do agronegócios com seus abcessos, pus e expulsão de camponeses cabanos.

Em 1635, Pedro Teixeira iniciou o desbravamento da fronteira amazônica;



em 1673, teve, em uma delas a presença do Padre Vieira, sim, aquele jesuíta dos fenomenais sermões e discursos.




Isso, aquele que teve o “estalo” intelectual. Dizem os livros que em 315 anos ela já fora visitada por uma esquadra do imperador Abu Bakari II do Mali.

Karl Jaspers tem razão, estamos entrando em uma Segunda Idade Eixo, como entre 800 a 200 AC. Isso levará ao desaparecimento da corrupção política de gestão privada, no que é de todos. Novas éticas e morais elevadas fluirão como a selva que ocupa todas as partes, não teme a destruição, pois sabe que a juquira (plantas que nascem no sal - cinzas) a reporá em seu lugar, para o sorriso do Matita Pereira, do Caipora, da Iara e Boitatá.

Escutei o canto e vi o brilho solar dos olhos de milhares Muiraquitãs na lua cheia, amarelada, prenunciando período de seca, já havia visto isso há mais de 4.830 anos durante o cativeiro no Egito.

A missão foi iniciada na alegria tuxaua agroecológica hileana, retornei à casa lembrando o grito no encerramento no Congresso de Agronomia em Belém em 1989: “Murupiara Amazônia e o dia 08 de Outubro nas águas de Altér do Chão no não distante Tapajós onde encontrei a Juquira Candiru (Satyagraha). Ir à Amazônia (escola) é aprender (decifrar) a espiritualidade na vida e conhecer o amor, meus agradecimentos pela oportunidade impar.

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*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ser do Norte - Cana Da



Trilogia 2 Ser do Norte
Interpretes - Nilson Chaves - Lucinnha Bastos - Mahrco Monteiro
Composição Jana Figarella

quinta-feira, 15 de junho de 2017

AGROECOLOGIA & AGRONEGOCIOS, CUANDO REDUCIONISMO Y HOLISMO SON AMBIVALENTES

Sebastião Pinheiro*


Al alcanzar el ANTROPOCENO (término evolucionado de la Noosfera, acuñada por Theillard du Chardin, Wladimir Vernadsky y Edouard LeRoy en 1922), el Premio Nobel Paul J. Crutzen buscó demostrar la capacidad de los humanos para comprometer la atmosfera del planeta y los consecuentes riesgos advenidos para la Vida. Vida que no existe sin la energía de los alimentos, que antes se subentendía, era producida por la Agricultura, pero hoy día eso también es cuestionado. 

Para comprender lo que es la agricultura, se necesita decir que ella no existe en la naturaleza, pues es creación de un grupo de especies denominadas “ultrasociales”, que producen los alimentos que necesitan en el espacio de la naturaleza.
Los seres ultrasociales más antiguos son las termitas quienes existen desde hace más de 300 millones de años, cronológicamente, siguen las hormigas arrieras hacen más de 130 millones de años,  las abejas melíferas hace más de 60 millones de años, y más recientes algunos topos. Las mujeres desarrollaron hacen más de diez mil años lo que nos incluyo en esa clase especial de seres vivos.

Es imprescindible leer “La Naturaleza” de J.W. von Goethe para percibir que la agricultura existe mientras el tiempo humano ocupe su espacio, ella regresa a sus orígenes cuando finalizan las acciones ultrasociales.

Mutatis mutandis, en los últimos treinta años el sustantivo agricultura perdió fuerza y dos neologismos inundaron el mundo: “Agroecología” y “Agronegocios”, con la intención de que fueran percibidos y adoptados como antagónicos.

 La agricultura, palabra del latín “agri” referente al campo y, “cultura” respecto a cultivar, es un acto social inherente a hombres y mujeres que ha modificado su praxis y paradigmas a lo largo de la historia dependiendo de las condiciones climáticas, geográficas, topográficas, económicas, socio-políticas y culturales, respondiendo a los diferentes modelos estructurales según el contexto. Lo anterior muestra que sería imposible la existencia de una visión única del desarrollo de la agricultura todo lo contrario, el desarrollo de la agricultura es diverso y contextual. 
A pesar de ello se impone una visión hegemónica que se convierte en violencia estructural sin que percibamos sus raíces originales por los intereses del poder y su consolidación cotidiana cada vez con mayor énfasis. En la moderna encyclopedia “Wiki”, en ingles es posible leer la definición de industria de alimentos (The Food Industry is a complex, global collective of diverse businesses that supplies most of the food consumed by the world population. Only subsistence farmers, those who survive on what they grow, and hunter-gatherers can be considered outside of the scope of the modern food industry, that includes:

 Agriculture: raising of crops and livestock, and seafood.

 Manufacturing: agrichemicals, agricultural construction, farm machinery and supplies, seed, etc.

 Food processing: preparation of fresh products for market, and manufacture of prepared food products.

 Marketing: promotion of generic products (e.g., milk board), new products, advertising, marketing campaigns, packaging, public relations, etc.

 Wholesale and distribution: logistics, transportation, warehousing.

 Foodservice (which includes Catering).

 Grocery, farmers' markets, public markets and other retailin.

 Regulation: local, regional, national, and international rules and regulations for food production and sale, including food quality, food security, food safety, marketing/advertising, and industry lobbying activities.

 Education: academic, consultancy, vocational.

 Research and development: food technology.

 Financial services: credit, and insurance.

Esa definición muestra cómo, lo que antes era campo de acción de la agricultura humana, actividad ultrasocial, es ahora un terreno dominado por sectores poderosos involucrados en ella, a través de la violencia estructural, de bloquear y destruir la conciencia social, de negar su interdependencia con el biopoder campesino en todos los rincones del mundo por lejanos y periféricos que parezcan.

De la misma forma que en el “Punto Cuatro” del discurso de Truman, al jurar el cargo de presidente de los Estados Unidos el 20 de enero de 1949, constaban dos tipos de agricultura: la “moderna” y la de “subsistencia”. La moderna aceptaba nos nuevos insumos y tecnología de capital por lo que se instituía el crédito; La de subsistencia era en nombre dado a la Agricultura Familiar de forma despectiva para que aceptara más rápidamente los créditos para adquirir insumos y tecnologías.

El tiempo pasó, ahora tenemos dos “nuevos” conceptos: los “agronegocios” y la “agroecología”. Antes, la agricultura moderna domesticaba a la de subsistencia a través del crédito, la extensión rural y la enseñanza de las ciencias rurales. Aquellos recalcitrantes que resistieron a las políticas públicas multilaterales, internacionales y nacionales dejaron de ser de “subsistencia”, ahora hacen parte de la agricultura familiar agroecológica, mientras hoy ambas las dos están con la misma finalidad reduccionista en nicho de mercado diferentes para pobres y ricos respectivamente.
Siendo que la derradera existirá hasta que las corporaciones de la Industria de Alimentos lo permita.   

La expresión “burbuja de realidad” se hace necesaria cuando se habla de agroecología en el Hemisferio Sur, pues ilustra la distancia entre el discurso y la práctica, entre lo real y lo ideal, de países y territorios bajo el control y el poder de la industria de alimentos que no permite -o que redacta a su medida-, las políticas públicas.

Hablamos del agotamiento de una y el crecimiento de la otra sin embargo, lo que ocurre en realidad es el control total de ambas, control monolítico, ejercido por el poder de la industria (Council on Foreign Relations). El aparente “agotamiento” de la “agricultura moderna” no significa que la sociedad industrial necesite cambiar su modelo, sino que la forma en que ésta se realiza, debe de adaptarse al soporte natural que no aguanta más las macro inversiones de energía exógena, embazadas en los insumos químicos de síntesis industrial.
Es decir, cambia la matriz tecnológica que deja de ser química industrial grosera, y pasa a ser una matriz “de vida”, biosíntesis, matriz muy selectiva para una media docena de empresas que superan a los Estados Nacionales y tienen capacidad para hacer inversiones superiores a mil millones de dólares al año.
El poder del, agronegocio, traducción de “agribusiness” merece un análisis sintáctico: Agricultura es fruto del trabajo ultra social de las especies antes citadas y es una contradicción usar la expresión agri-business (sin ocupación) pues ella solo existe a través del trabajo y fuera de la naturaleza.  En español “agro-negocio” tiene el mismo significado, negación del ocio. ¿A qué ocio se refiere, si la agricultura no existe en la naturaleza y es la acción ultrasocial la que permite la imprescindible producción de alimentos?

El matemático Carol Lewis primero y sociólogo Boaventura de Sousa Santos después, nos llevan al espejo donde lo real y lo virtual ocupan la misma imagen. La agro+ecología, neologismo creativo que se refleja en el espejo, elimina el sufijo “cultura” de profundo significado en el contexto en que el humus crea las guerras, por codicia, por civilización, por la agri+cultura sostenida por ejércitos.

Nadie en América Latina cuestiona el agronegocio. La ex presidenta de Argentina Cristina F. de Kirchner, intentó cobrar el pago de los costos de la seguridad social a través de impuestos a los agronegocios y fue derrotada por su propio pueblo, víctima de la propaganda de los medios de manipulación masiva. El nuevo orden internacional no permitió tal cobro, lo que es un descalabro.

Para evitar desequilibrio o visión unilateral del problema que ya nos hizo tanto daño en la fase de “agricultura moderna” es que se crea la agroecología sin poder, con discurso y retórica, como una bandera manipulada, manipulable e ingenua, que es tomada por la mayoría de los movimientos sociales agrarios y rurales en América Latina. Bandera que cuenta con su propia aristocracia científico-intelectual, formada en el seno de universidades e institutos de Estados Unidos y Europa, donde la esencia emancipadora del poder campesino, del sujeto político, del actor social transformador, alcanza para scientific papers y congresos, pero prácticamente nunca a la realidad.

Miremos hacia la educación. ¿Por qué México adopta la carrera de Ingeniería Agroecológica, que ya tiene registro hace 25 años y en Brasil se adoptan la licenciatura y Bachilleratos vacíos de poder? Pareciera que en México se utiliza la misma estructura académico-administrativa junto a los cursos tradicionales, propiciándose una transición suave e indolora, mientras que en Brasil se crean escuelas en locales aislados y sin las condiciones materiales mínimas como laboratorios o infraestructuras acordes con las necesidades del curso. ¿Será para montar una farsa que satisfaga al Banco Mundial-CFR, pero sin causar incomodidades al Agronegocio?

El gran generador de empleos técnicos de calidad en agricultura hasta las dos últimas décadas del siglo XX era la Extensión Rural, creada años atrás por la Fundación Rockefeller con la finalidad de capitalizar internacionalmente la agricultura basada en el consumo de insumos y paquetes tecnológicos.

En el caso de Brasil cuando regresó la “democracia”, aquella extensión rural fue abandonada, las grandes organizaciones y grupos contestatarios regresaron del exilio y pasaron a crear ONGs financiadas con dinero “indulgente” de ciudadanos de los países industrializados. Indulgentes dólares, libras, euros, yenes, que buscan expiar la culpa inducida por las grandes corporaciones de la mercadotecnia y los mass-media, interesados en el cambio hacia la nueva matriz tecnológica de la biotecnología y la biología molecular para vender los servicios de la agroecología.
Es inconsciente el valor proporcional del costo participativo de cada tarjeta, etiqueta, sello y certificado, en el trabajo campesino (café, cacao, frutas, legumbres, etc.). Esa es la Agroecología de ellos y no sólo en Brasil sino en México y Colombia por dar dos ejemplos (Nestlé, Caca-Cola, PepsiCo, Cargill, GIZ, USDA, JICA,  así como Fundaciones, Organizaciones y demás entes, que con dinero privado o triangulando recursos públicos lavan la cara a los intereses y matrices hegemónicos). 

Es Ortega y Gasset quien dice: “La juventud raramente tiene razón en las cosas que niega, pero siempre tiene razón en las cosas que afirma”. Por todo Brasil he escuchado reclamos en cuanto a las condiciones del curso y desilusión de los alumnos. Es muy raro que se consiga éxito en la agroecología sin un grado académico con suficiente cálculo matemático, estadística, física, biología, fitogeografía, botánica, química, bioquímica, fitoquímica, fisiología, etnología, pedagogía y filosofía.

Es difícil enfrentar una articulación que tiene por detrás un Orden Internacional. En varios países de América Latina la agroecología inunda o inundará universidades, asambleas legislativas, ministerios y congresos nacionales, como el contra punto del agronegocio que corre suelto sin control para la distracción, no la alegría, pues resulta útil para desviar la atención de los más humildes y dar fe de futuro a los más jóvenes. ¡A otro perro con ese hueso! es el dicho que debería ser empleado, pero no es así.

El resultado de la codicia del capitalismo en la agricultura industrial moderna impuso el termino banquero de “sustentabilidad”, que en economía significa manutención del stock de capital y la creación del neologismo agribusiness, urbi et orbi, traducido como “agronegocios”, un término muy contradictorio pues, como no hay agricultura en la naturaleza -como se ha mencionado antes, ella es resultado del trabajo ultrasocial-, entonces tampoco puede haber ocio en ella, es también donde más se roba “más valía” a través de la esclavitud, la servidumbre, el salario y el consumo de servicios innecesarios que quitan dignidad al campesino apropiándose de su biopoder ultrasocial.

Durante los gobiernos de Lula y Dilma en Brasil, la envidia política y la mezquindad, condujeron al fiscal del gobierno (INPS) a cerrar la Cooperativa Ecológica Coolméia, esfuerzo organizativo que contaba con más de 30 años de edad y que es ejemplo en el mundo.

Los agronegocios nacionales pasan a significar la sustentabilidad sin solución de continuidad para el abasto-suministro mundial de commodities subsidiadas por el hambriento pueblo latinoamericano que debe abastecerse mediante la transformación de la industria para que las quedas internacionales de precios garanticen los negocios a través del consumo interno.
Nadie quiere darse cuenta que la acción ultra social es cotidianamente transferida del campesino hacia la industria de alimentos. Por otra parte, la importación de servicios quita valor a los productos y hace que los países centrales, a través de una docena de empresas, monopolicen el comercio internacional de alimentos de calidad. Alemania por ejemplo, siendo la mayor productora de alimentos orgánicos-agroecológicos, su producción agrícola, pesquera y forestal genera solamente 3% de su Producto Interno Bruto. Allá la palabra agroecología es extraña dentro de su academia, su política y su economía sin embargo, es importante para su comercio exterior.

Artículos como Agribusiness, peasants, lefts-wings goverment on the State in Latin America: An review and theoritical reflections, de Vergara-Camus y Kay (Wiley Agrarian Change, 03-01-17), resultan lecturas necesarias y de útil discusión en todos los ambientes agroecológicos pues pueden inducir a desviaciones ideológicas. ¿Cual es el gobierno latinoamericano que estuvo o está realmente en el “poder”? La mayoría de ellos únicamente administraron el gobierno o parte del mismo, respondiendo a los intereses de la oligarquía local e internacional, del CFR,  de las agrupaciones de banqueros, de las multinacionales, de terratenientes y mass-media.
Es necesario reconocer que lejos de consolidarse un genuino “poder de izquierda”, algunos gobiernos impulsados por organizaciones y movimientos campesinos, sindicales, y sociales, actuaron como mecanismos de contención y mediatización de luchas populares.
También es cierto que existen gobiernos en América Latina que a pesar de las presiones de los poderes financieros, políticos y mediáticos mundiales, así como de limitaciones internas como el rentismo y la enajenación de grandes sectores de la población, su existencia ha permitido la apertura de espacios masivos de participación, organización y formación política.
Sin embargo, administrar un Estado que se ha construido y funciona bajo las reglas del Orden Mundial dominante, difícilmente resultará por el sólo hecho político-administrativo de “gobernar”, en el desarrollo de un biopoder campesino creciente, sólido o de cualquier otro poder popular vivo.

Podría terminar aquí, pero vuelvo a la educación y mi reciente gira por el Noreste de Brasil. En los últimos 30 años no se realizaron inversiones en educación, salud, seguridad, agricultura y alimentos. Todo fue y es violencia estructural manipulada y conducida con maestría. En este sentido, el artículo citado es contundente: “La patente paradoja de la movilización (popular) con propuestas a la retórica de las acciones virtuales con mucha propaganda y publicidad inconsecuentes”.
Algunas ONGs que hacían trabajo con migajas de la indulgencia de la comunidad europea, pasaron a tener decenas de millones de dólares del presupuesto nacional para ejecutar lo arriba expuesto como si fueran políticas públicas.
En el Sur maravilla una OSCIP de un prócer del gobierno que recibió 2,5 millones de reales, mientras los encargados de un departamento de economía solidaria de una incubadora universitaria disponía de 150 mil reales. Al mismo tiempo, un diputado conquistó para su grupo de apoyo 500 mil reales mediante una enmienda parlamentar al presupuesto nacional...
Eso se repitió en todas las latitudes y longitudes nacionales y de ultramar. Tuve la oportunidad de visitar una ONG y ella pasó a tener la estructura de un órgano federal, con más de 80 computadores, automóviles, mientras la municipalidad local quedaba avergonzada y con atraso en el repase de sus recursos por tener gestión independente.

Ahora los veo humillados, llorando porque dos tercios de su personal fueron despedidos por los cortes en las dotaciones presupuestales. No hay humildad, ni autocrítica en decir: por el gobierno desviamos propuestas y propósitos sociales e ideológicos inherentes al pueblo, bien aprovechado por los golpistas del CFR, Industrias y Agronegocios. Hicimos un deservicio al Bio-poder Campesino.

Mi triste conclusión es que la agroecología es un espejo virtual de la realidad del interés de la industria de alimentos, que ya está escondida por detrás del espejo aguardando la orden para reflejar su imagen sostenible, vacía de poder tan arrogante y prepotente como la agricultura moderna de las dictaduras, pero con el humano cada vez mas deformado.

Sin embargo, a pesar de las decepciones y desilusiones, no todo está perdido. Hay que denunciar la instrucción que se da a técnicos nacionales e internacionales de las grandes empresas, que actúan en la agroecología para Nestlé, Coca Cola, Cargill, Pepsi Cola y otras con desenvoltura en “upgrade” del agronegocio ecológico.

Todo el trabajo que hice desde 1968 en la agricultura y que me costó muchos daños económicos sociales, y otros más por la dictadura que actuó en interés de las multinacionales de los agrotóxicos, hoy son conquistas para Nestlé, Coca Cola, Monsanto, Bayer, etc.
Los alimentos orgánicos (agroecológicos) son ideológica y religiosamente para los más ricos, “educados” y pudientes, en esta historia, los movimientos sociales auténticos fueron usados para la transición de una matriz tecnológica hacia otra.

Con todo, no fuimos derrotados. Hoy día trabajamos con el BIO-PODER CAMPESINO y en él, con ESPIRITUALIDAD que empecé a percibir en el México multiétnico.
La actividad ultra social de la agricultura impone valores espirituales, espiritualidad campesina que no debe confundirse con misticismo y esoterismo europeo pues es antagónica a todo ello, espiritualidad que es resistencia. Pero ojo que ya en Holanda y Oxford University hace diez años hay estudios sobre como introducir “espiritualidad” en el comercio de alimentos “agroecológicos”. ¿Recuerdas del banano jarocho de Vera Cruz que jamás tendría la competencia de los orgánicos (agroecológicos) de Nestlé Coca Cola? Ahora parece que lo tiene.
Sin embargo, a lo largo del tiempo ganamos nosotros en el bio-poder campesino, pues anticipamos la imagen delante del espejo y ella pierde la condición de virtual y pasa a ser real.

Lo que me deja atónito no es la falta de laboratorios y prácticas verdaderamente agroecológica en el Hemisferio Sur, sino que su extensión-agroecológica este siendo gestada en facultades de educación, en un país que nunca, jamás en tiempo alguno, aplicó políticas las públicas de Paulo Freire con el poder (y bio-poder campesino), sino únicamente con gobiernos caricatos y desposeídos. ¿Será que estamos preparando el ambiente publicitario para que la extensión asuma la función ultra social campesina en favor de industria de los alimentos? ¿Donde la biotecnología escoltada por los neo-agrónomos utilice la interface de los insumos agroecológicos de la industria de alimentos, propalado por bachilleres y nutriólogos?

Me quedé avergonzado, no con esa realidad, sino con la ausencia de un nacional en la bibliografía del diversionista artículo referido arriba, y sin embargo, tenga más de diez referencias a la presidenta de Brasil. Eso impide e induce al estudioso a ver la “burbuja de realidad virtual de la agroecología”. Callar seria ser cómplice o comparsa.
No tengan miedo, recuerdo que en los años 80 recibimos en el Sur maravilla a tres especialistas alemanes en agricultura orgánica. Lo raro fue que ellos tenían cinco años de estudios en la Escuela de la multinacional de agrotóxicos Hoechst y solamente un curso de 3 meses en agricultura orgánica, pero llegaban como “experts”. Con lo que vieron uno retornó en una semana con fuerte shock cultural. La otra, de la misma forma, retorno a los tres meses después de caer de un caballo. El último se quedaba muy molesto con la campañas contra los agrotóxicos de su Alma Mater y la lucidez en contra la “burbuja virtual” del GTZ-CFR...

En las Universidades ahora surgen las cátedras de agroecología, con profesores deficientes por la formación ortodoxa y los alumnos reclaman, por la misma visión y misión en el Orden Internacional de la agroecología industrial con su codicia y reduccionismo, pues lo que están haciendo es sustituir el veneno químico y fertilizante sintético por productos bio-sintéticos de las mismas grandes empresas que solamente sustituyen su línea de producción.
Cambio lento y gradual para no incomodar estructuralmente, en la periferia del mundo, al sabor de los intereses centrales, que ya hace 30 años tienen en la biopiratería de la agricultura orgánica su mercado rentable de servicios y ganancias formidables, mientas lo que más avanza es el discurso sociológico de la Agroecología  sintonizado con banderas y militancias de los movimientos sociales ansiosos por un gobierno al envés del poder.

Pocos fueron los que montaron estrategias, organizaron la producción y desarrollaron tecnologías para la agricultura orgánica y agroecología. La rebeldía en el Sur de Brasil generó éxitos precoces y pioneros, pero también fueron sofocados por la enajenación, la corrupción y el servilismo al servicio del poder del gran capital internacional y aquellas ansias de “gobierno”. Eso vivimos.

La “Agroecologia del U.S State Dept.” se tornó en un fuego de paja que se alastra sin conservación de energía o producción de calor, pero prepara corazones y mentes para las grandes empresas, pues no hay políticas públicas de genuino biopoder campesino.

Con todo, el valor de la comida de alta calidad es hoy día, superior a 200 mil millones de dólares/año, comida exclusiva para la elite en contradicción con discursos y aparentes utopías, mera distopía al servicio de la Eugenesia de Spencer, Hitler y otros.

* Em versão anterior deste texto, na
a página da "Juquira Candiru", a foto de um grupo de alunos de agronomia no Brasil Central manipulados e induzidos provocou indignação. Mutatis mutandis lembrei-me de duas situações da minha exígua juventude, na Guerra do Vietnã. "Faça a Guerra não faça Amor" (foto) e a resposta a uma consigna oficial: "Bombardear pela paz é o mesmo que estuprar pela Virginidade". Mas o artigo é sobre outra coisa que não se quer ver na América Latina. Bom proveito.




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*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor